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domingo, 20 de setembro de 2015

De volta à palavra

Sermão pregado no CLICERJ 19/09/2015 baseado no sermão de Spurgeon


“Para testemunhar o evangelho da graça de Deus.” (Atos 20.24)
Paulo disse que, em comparação com o seu grande propósito de pregar o evangelho, não considerava sua preciosa para si mesmo; mas temos certeza de que Paulo valorizava a sua própria vida. Como todo homem, ele tinha amor pela vida e sabia que sua própria vida era importante para a igreja e a causa de Cristo. Certa vez Paulo disse: “Por vossa causa, é mais necessário permanecer na carne” (Fp 1.24). Ele não estava cansado da vida, nem era uma pessoa tola que tratava a vida como fosse algo que podia lançar fora nos esportes. Paulo valorizava a vida, visto que valorizava o tempo, que constitui a vida, e usava de modo prático cada dia e hora, “remindo o tempo, porque os dias são maus” (Ef 5.16). Apesar disso, Paulo falou aos presbíteros da igreja de Éfeso que não considerava a sua vida preciosa, em comparação com o dar testemunho do evangelho da graça de Deus.
De acordo com o versículo que ora consideramos, o apóstolo considerava a vida como uma carreira que tinha de realizar. Ora, quanto mais rapidamente corrermos, tanto melhor será a carreira. Com certeza, a extensão não é o alvo desejado. O único pensamento de um corredor é como ele pode alcançar mais rapidamente a marca de chegada. Ele menospreza o solo; não se preocupa com o percurso, exceto com o fato de que aquele é o caminho pelo qual ele tem de correr para atingir seu objetivo. A vida de Paulo era assim. Toda a vigor de seu espírito estava concentrada na busca de um único objetivo, ou seja, dar testemunho do evangelho da graça de Deus. E a vida que Paulo tinha aqui embaixo era valorizada por ele somente como meio para atingir seu objetivo.
Paulo também considerava o evangelho e seu ministério de testemunhá-lo como um depósito sagrado que lhe fora confiado pelo próprio Senhor. Paulo via a si mesmo como aquele a quem o evangelho fora confiado (cf. 1 Ts 2.4) e resolvera ser fiel, embora isso lhe custasse à vida. Diante dos olhos de sua mente, Paulo via o Senhor tomando em suas mãos traspassadas o cofre precioso que continha a joia celestial da graça de Deus e dizendo-lhe: “Eu o redimi com meu sangue, eu o chamei por meu nome; agora confio esta coisa preciosa às suas mãos, para que você cuide dela e guarde-a até com o seu próprio sangue. Eu o comissiono a ir por todos os lugares, com meu substituto, para fazer conhecido a cada pessoa, debaixo do céu, o evangelho da graça de Deus”.
Sabemos que o Senhor comissionou a igreja para pregar o evangelho como Cristo assim o fez (João 20:21), e nós devemos ser como Cristo.
O que era esse evangelho pelo qual Paulo estava disposto a morrer? Não era qualquer coisa chamada “evangelho” que produzia esse entusiasmo. Em nossos dias, temos evangelhos pelos quais eu não morreria, nem recomendaria a qualquer de vocês que vivessem por eles, pois são evangelhos que se extinguirão em poucos anos. Nunca é digno que morramos por uma doutrina que morrerá por si mesma. Já vivi tempo suficiente para ver o surgimento, o florescimento e a decadência de vários evangelhos. Há muito me disseram que minha velha doutrina calvinista estava ultrapassada, era uma coisa desacreditada. Em seguida, ouvi que o ensino evangélico, em qualquer forma, era uma coisa do passado que seria suplantada por “pensamentos avançados” (Para os devassos, para os sodomitas, para os roubadores de homens, para os mentirosos, para os perjuros, e para o que for contrário à sã doutrina. 1 Timóteo 1:10).
O que era esse evangelho que Paulo valorizava mais do que sua própria vida? Paulo o chamou de “evangelho da graça de Deus” (Maravilho-me de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho. Gálatas 1:6). O aspecto do evangelho que mais impressionou o apóstolo foi o de que era uma mensagem da graça, e tão somente da graça. Em meio à música das boas-novas, uma nota se sobressaía às outras e encantava os ouvidos do apóstolo. Essa nota era a graça — a graça de Deus. Essa nota ele considerava característica de toda a melodia; o evangelho era o “evangelho da graça de Deus”. Em nossos dias, a palavra graça não é muito ouvida; ouvimos a respeito dos deveres morais, ajustes científicos e progresso humano. Quem nos fala sobre a graça de Deus, exceto umas poucas pessoas antiquadas que logo passarão? Sou uma dessas pessoas antiquadas, por isso tentarei ecoar essa palavra graça, para que todos os que conhecem o seu som se regozijem, e ela penetre o coração daqueles que a desprezam.

A graça é a essência do evangelho. A graça é a única esperança para este mundo caído! É o único consolo para os santos que esperam pela glória. No que concerne à graça, talvez Paulo tinha uma percepção mais clara do que Pedro, Tiago ou João; por isso, ele escreveu mais no Novo Testamento. Os outros escritores apostólicos excederam a Paulo em outros aspectos, mas ele, devido à clareza e à profundidade na doutrina da graça, permanece como o primeiro e o mais importante. Precisamos novamente de Paulo ou, pelo menos, do evangelismo e da clareza paulinos. Ele desprezaria esses novos evangelhos e diria aos que o seguem: “Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho, o qual não é outro, senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo” (Gl 1.6-7).
Permita-me explicar de modo breve como o evangelho é as boas-novas da graça. O evangelho é um anúncio de que Deus está disposto a perdoar a culpa do homem com base no favor gratuito e na pura misericórdia. Não haveria boas novas em dizer que Deus é justo, pois, em primeiro lugar, isso não é novidade. Todos sabemos que Deus é justo; a consciência natural ensina isso. O fato de que Deus pune o pecado e recompensa a justiça não é uma novidade. E, se fosse, ainda não seria uma boa notícia; pois todos pecamos, e, com base na justiça, todos devemos perecer. Mas o fato de que o Juiz de todos está pronto a perdoar as transgressões e justificar o ímpio, isso é boa nova, da melhor qualidade. O fato de que o Salvador perdoará o pecado, vestirá o pecador com sua justiça e o receberá em seu favor, não por conta do que ele fez ou fará, e sim por causa da graça soberana — isso é boa nova. Embora sejamos todos culpados, e todos condenados por nossos pecados, Deus está disposto a nos remover da maldição de sua lei e nos dar toda a bem-aventurança de um homem justo, num ato de pura misericórdia. Esta é uma mensagem digna de que morramos por ela — a mensagem de que, mediante a graça, Deus pode ser justo e, ao mesmo tempo, justificador daquele que crê em Jesus; a mensagem de que ele pode ser justo Juiz dos homens e de que os crentes podem ser justificados gratuitamente pela graça de Deus, mediante a redenção que há em Cristo Jesus! O fato de que Deus é misericordioso e gracioso e está pronto a abençoar o mais indigno é uma notícia maravilhosa! É uma notícia digna de um homem gastar centenas de vidas comunicando-a!
O meu coração pula dentro de mim, quando repito isso, neste salão, e digo ao arrependido, ao desanimado e ao desesperado que, embora seus pecados mereçam o inferno, a graça lhes pode dar o céu e prepará-los para aquele lugar bendito; e pode fazer isso como um ato soberano de amor, completamente independente do caráter e merecimentos deles. Há esperança para o mais desesperado, porque o Senhor diz: “Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão” (Rm 9.15). Visto que o Senhor diz: “Não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia” (Rm 9.16), há uma porta de esperança aberta para aqueles que, de outro modo, entrariam em desespero. Sim, posso entender Paulo sentindo uma santa agitação a respeito de uma revelação como essa da graça gratuita! Posso entendê-lo sentindo-se disposto a entregar a própria vida, a fim de anunciar aos pecadores que a graça reina por meio da justiça para a vida eterna.
Mas o evangelho nos diz muito mais do que isso. O evangelho nos diz que Deus, o Pai, a fim de relacionar-se com os homens, com base no favor gratuito, Ele mesmo removeu o grande obstáculo que estava no caminho da misericórdia. Deus é justo; essa é uma verdade inquestionável. A consciência humana reconhece isso, e a consciência do homem não fica tranqüila enquanto não vê a justiça de Deus satisfeita. Então, para que Deus lidasse de maneira justa e misericordiosa com o homem, Ele deu seu Filho unigênito, a fim de que, por sua morte, a lei recebesse o que lhe era devido e fossem mantidos os princípios eternos do governo de Deus. Jesus foi designado a assumir o lugar do homem, levar o seu pecado e suportar o castigo da sua culpa. Como Isaías afirma isso com tanta clareza em seu capítulo 53! Agora o homem é salvo em segurança, porque o mandamento não é desprezado, nem a penalidade, revogada. Jesus fez e suportou tudo que a justiça mais severa poderia ter exigido. E a graça tem as mãos desimpedidas para distribuir perdões conforme lhe apraz. O devedor é liberado, pois a sua dívida foi paga. Ele vê o Salvador morrendo e ouve o profeta, que diz: “O castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Is 53.5).

Irmãos, planejar e aceitar a expiação foi graça da parte de Deus, especialmente porque Ele mesmo proveu a expiação às custas de Si mesmo. Isso é maravilhoso! Aquele que foi ofendido, Ele mesmo proveu a reconciliação! Ele tinha apenas um Filho. E, como havia um obstáculo impedindo-o de relacionar-se com os homens, com base na pura graça, Ele tomou seu Filho, permitiu-Lhe assumir nosso natureza frágil e, nessa, natureza permitiu-Lhe morrer, o Justo pelos injustos, para conduzir-nos a Deus. “Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” (1 Jo 4.10). Isso é o evangelho da graça de Deus — Ele é capaz de, sem injustiça, lidar com os homens servindo-se de pura misericórdia, mas completamente separado dos pecados ou dos méritos deles, porque tais pecados foram lançados sobre seu Filho, Jesus Cristo, que ofereceu à justiça divina uma satisfação completa, para que Deus seja glorioso em santidade e, ao mesmo tempo, rico em misericórdia. Sim, amado Paulo, existe algo digno de ser pregado neste mundo!
A fim de cumprir os desígnios da graça era necessário que a mensagem do evangelho fosse anunciada cheia de promessa, encorajamento e bênção. De fato, essa mensagem foi entregue a nós, pois o evangelho que pregamos está repleto de graça. Ele diz assim: Pecador, tal como você está, converta-se ao Senhor; Ele o receberá e o amará graciosamente. Deus anuncia: “Para com as suas iniqüidades, usarei de misericórdia e dos seus pecados jamais me lembrarei” (Hb 8.12). Por causa de Cristo, e não por causa de quaisquer agonias, lágrimas e pesares em você, Deus afastará de você os seus pecados, como o Oriente dista do Ocidente. Ele disse: “Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã” (Is 1.18). Você pode vir a Jesus tal como está; Ele lhe dará remissão completa, desde que você creia nEle. O Senhor diz hoje: “Não olhe para dentro de si mesmo, como se quisesse achar qualquer mérito ali. Olhe para mim e seja salvo. Eu o abençoarei à parte dos méritos, de acordo com a expiação de Cristo Jesus”. Ele diz: “Não olhe para dentro de si mesmo, como se procurasse alguma força para a vida futura. Eu serei a sua força e a sua salvação, pois, quando você estava sem forças, Cristo morreu no devido tempo em favor de ímpios”.
A mensagem do evangelho é uma mensagem de graça porque é direcionado àqueles cujo único clamor é a sua necessidade. Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. Cristo não veio para chamar justos, e sim pecadores, ao arrependimento. Portanto, venham aqueles que são moralmente enfermos; venham aqueles cuja fronte está embranquecida pela lepra do pecado. Venham e sejam bem-vindos, pois este evangelho proclamado por autoridade divina é para vocês. Com certeza, uma mensagem como essa é digno de todo esforço em favor de sua propagação; ela é tão bendita, tão divina, que podemos derramar, com alegria, nosso próprio sangue a fim de proclamá-la.
Além disso, para que este evangelho abençoador chegue ao alcance do homem, a graça de Deus adotou um método adequado à condição do homem. Alguém pode indagar: “Como posso ser perdoado? Responda-me logo, com verdade!” Eis a resposta: “Crê no Senhor Jesus e serás salvo” (At 16.31). Deus não exige de você boas obras, nem bons sentimentos, e sim que esteja disposto a aceitar o que Ele dá gratuitamente. Deus salva com base no crer. Isto é fé: creia que Jesus é o Filho de Deus e confie-se a Ele. “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome” (Jo 1.12). Se você crer, será salvo. A salvação “provém da fé, para que seja segundo a graça, a fim de que seja firme a promessa para toda a descendência” (Rm 4.16).
Talvez você diga: “Mas a fé está além de meu alcance”. Então, no evangelho da graça de Deus somos informados de que a própria fé é um dom de Deus, que a produz nos homens por meio do seu Espírito Santo. Sem o Espírito Santo, os homens estão mortos em delitos e pecados. Oh! que graça preciosa! A fé ordenada é também outorgada! “Mas”, alguém diria, “se eu crer em Jesus e os meus pecados passados forem perdoados, tenho medo de voltar ao pecado, pois não tenho forças para me guardar quanto ao futuro”. Ouça: o evangelho da graça de Deus é este: Ele o guardará até ao fim; Deus manterá vivo o fogo que acendeu em você, pois Ele mesmo diz: “Dou a vida eterna às minhas ovelhas”. E diz também: “A água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna” (Jo 4.14).
As ovelhas de Cristo nunca perecerão, e ninguém jamais as arrebatará das mãos dEle. Você ouviu isso, pecador culpado, que não tem qualquer direito à graça de Deus? A graça gratuita de Deus lhe será dada; sim, ela será dada até a você. Se você for tornado disposto a recebê-la, será salvo neste mesmo dia, e salvo para sempre, sem qualquer dúvida. Digo-o novamente: este evangelho é tão digno de ser pregado, que posso entender as palavras de Paulo: “Em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus”.

Você se sente inclinado a aceitar o caminho e o método da graça? Permita-me testá-lo. Algumas pessoas acham que amam algo, mas, de fato, não o amam, pois cometeram um erro concernente ao que imaginam amar. Você entende que não tem qualquer direito em relação a Deus? Ele diz: “Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão” (Rm 9.15). Quando nos referimos à pura misericórdia, ninguém pode realmente apresentar um direito para com ela. De fato, não existe tal direito. Se a misericórdia vem por graça, ela não é uma dívida; e, se é uma dívida, não vem por graça. Se Deus quer salvar uma pessoa e deixar outra perecer em seu próprio pecado obstinado, essa outra pessoa não pode argumentar com Deus. E, se o fizer, a resposta será: “Não posso fazer o que quero com aquilo que é meu?” Oh! você parece como se estivesse afastado da misericórdia! Preste atenção: o seu orgulho se revolta contra a soberania da graça. Deixe-me convidá-lo a retornar outra vez. Embora você não tenha qualquer direito, há outra verdade, que lhe é favorável.

Por outro lado, nada impede que você obtenha misericórdia. Se você não precisa de qualquer bondade para recomendar-lhe a Deus, visto que tudo que Ele dá é puro favor, nenhuma maldade é capaz de privá-lo desse favor. Embora você seja culpado, Deus pode mostrar-lhe favor. Em outros casos, Ele já chamou os piores pecadores. Por que não o faria com você também? De qualquer modo, nenhuma agravação de seu pecado, nenhuma permanência no pecado, nenhum aprofundamento no pecado pode ser a razão por que Deus não lhe daria sua graça; pois, se a pura graça, e nada mais do que esta, tem de exercer seu reino, o mais perverso transgressor pode ser salvo. Neste caso, há ocasião para a graça manifestar a sua grandeza. Tenho ouvido homens apresentarem desculpas com base na doutrina da eleição. Eles têm dito: “O que acontecerá se eu não for um eleito?” Parece-me mais sábio dizer: “O que acontecerá se eu for um eleito?” Sim, eu sou um eleito, se creio em Jesus, pois nunca houve um caso de uma alma descansar na expiação de Cristo, sem que fosse eleita de Deus desde antes da fundação do mundo.
Este é o evangelho da graça de Deus, e sei que ele toca o coração de muitos de vocês. Ele sempre estimula a minha alma, como o som de uma marcha militar, a pensar na graça de meu Senhor manifestada desde a eternidade, uma graça que é constante à sua escolha e lhe continuará sendo constante, mesmo quando todas as coisas visíveis desaparecerem como faíscas que se dissipam pela chaminé. Dentro de mim, o coração se regozija por ter de pregar essa graça gratuita e esse amor da morte de Cristo. Existe algo neste evangelho da graça gratuita que o torna digno ser pregado, digno de ser ouvido e digno de morrermos por ele.
Meu amigo, se o evangelho não lhe tem feito nada, abra seus lábios e fale contra ele. Mas, se o evangelho lhe tem feito o que faz por muitos de nós; se tem mudado sua vida, se o tirou da masmorra e o fez assentar-se num trono; se o evangelho é a sua comida e a sua bebida, bem como o próprio centro e o vigor de sua vida, testemunhe-o constantemente. Se o evangelho se tornou para você aquilo que ele é para mim, a luz de meu coração interior, o âmago de meu ser, proclame-o onde quer você vá e torne-o conhecido, ainda que as pessoas o rejeitem. O evangelho é para você o poder de Deus para a salvação e será isso mesmo para todos os que crerem.
Meu tempo acabou, mas tenho de detê-los mais um pouco, enquanto recordo-lhe as razões por que nós, irmãos, devemos fazer conhecido o evangelho da graça de Deus.
Primeiramente, ele é, afinal de contas, o único evangelho que existe no mundo. Esses evangelhos efêmeros do presente, que vão e vêm como um jornal barato — proeminente por um dia, mas depois lançado fora —, não têm direito ao zelo de qualquer homem. Contudo, ouvir o evangelho da graça de Deus é digno de uma caminhada de muitos quilômetros. E, se o evangelho fosse explicado com clareza em todas as igrejas, garanto-lhes que veríamos poucos bancos vazios: as pessoas viriam para ouvi-lo, pois sempre têm feito isso.
É um evangelho sem a graça de Deus que faz o rebanho passar fome, até que as ovelhas esqueçam as pastagens… Os homens querem algo que estimule seu coração em meio aos seus labores e lhes dê esperança quando estão sob o senso de pecado. Assim como o sedento necessita de água, assim também o homem necessita do evangelho da graça de Deus. E não existem dois evangelhos no mundo, assim como não existem dois sóis neste céu. Há somente uma atmosfera a respirarmos e apenas um evangelho pelo qual podemos viver.
Em segundo, viva pelo evangelho porque ele glorifica a Deus. Você percebe como o evangelho glorifica a Deus? Ele humilha o pecador, tornando-o nada, e mostra que Deus é tudo em todos. O evangelho coloca a Deus no trono e lança o homem no pó. Depois, ele conduz amavelmente o homem a adorar e reverenciar o Deus de toda graça, que perdoa a transgressão, a iniquidade e o pecado. Então, propague o evangelho.
Propague-o porque assim você glorificará a Cristo. Oh! se Ele viesse a este púlpito nesta manhã, quão alegremente O receberíamos! Quão piedosamente O adoraríamos! Se pudéssemos apenas ver a sua face, sua face majestosa e querida não nos prostraria em adoração? Se Ele falasse e dissesse: “Meus amados, eu lhes confiei o meu evangelho. Mantenham-no firme como o receberam! Não atentem às ideias e imaginações de homens, mantenham firme a verdade como a receberam. E anunciem ao mundo a minha Palavra, pois tenho outras ovelhas que ainda não fazem parte de meu rebanho e que devem ser trazidas. E vocês têm irmãos que são filhos pródigos, eles precisam retornar ao lar”. Eu lhes digo: se o Senhor os contemplasse individualmente e lhes falasse isso, cada um de vocês responderia: “Senhor, viverei para Ti! Eu farei que Te conheçam. Se for preciso, morrerei por Ti, a fim de tornar público o evangelho de Jesus Cristo!”


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Antes de se alegrar por uma alma devo aprender a angustiar-me

Sermão pregado na conferência missionário no dia 12/09/2015 na Igreja Assembleia de Deus Ministério em Anchieta (Congr. de Marechal Hermes Campo de Madureira)


E, chegando a casa, convoca os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque já achei a minha ovelha perdida. Lucas 15:6
Jesus chorou. João 11:35
E, quando ia chegando, vendo a cidade, chorou sobre ela, Lucas 19:41
O qual, nos dias da sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia. Heb. 5:7


O Evangelho de nosso Senhor descrito por Lucas no capítulo de número 15, é uma reunião de três parábolas que expressam o ensinamento do pecador remido por Cristo depois de ser alcançado pela graça de nosso Senhor. As parábolas são: do pastor que busca; da mulher que chora; e a do pai que ama, estas ensinam o arrependimento (Luc. 12:54-59). O Reino de Deus é o juízo sobre o Mundo em pecado (Chegou a hora de ser julgado este mundo; agora será expulso o príncipe deste mundo. João 12:31), contudo, Deus antes de julgar o Mundo pela sua infinita graça, permitiu que alguns dentre da massa caída fossem atraídos até a Cristo, no intuito de serem salvos (Mas eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim. João 12:32), isto através da renovação da comunhão com o pecador arrependido (Os homens de Nínive se levantarão no juízo com esta geração e a condenarão; pois eles se arrependeram com a pregação de Jonas, e agora está aqui o que é maior do que Jonas. Lucas 11:32), assim Deus sente a alegria por um pecador salvo (E, chegando a casa, convoca os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque já achei a minha ovelha perdida. Lucas 15:6).
Ter alegria por uma alma convertida não é tão simples como se pensa; o sentimento que permeia o religioso é o da condenação e rejeição ao não convertido (Mas os fariseus e os mestres da lei o criticavam: "Este homem recebe pecadores e come com eles". Lucas 15:2). Sentir o gozo pela conversão de alguém é aprender primeiro sentir a dor pelo não convertido. O nosso Senhor Jesus Cristo antes de ter alegria se angustiou por três vezes pelo pecador (João 11:35; Luc. 19:41; e Heb. 5:7). Chorar pelos que vão caminhando sem o Salvador neste Mundo. Em João 11:35 o Salvador se comove pelo sofrimento alheio e pela maldição da morte (João 11:33, 36), aquele atende a chamada missionária se compadece dos que sofrem, e choram com estes (Romanos 12:15). Em Lucas 19:41 o Salvador chora novamente desta vez consternado pela situação de afastamento de Deus que Jerusalém se encontrava, então, o que era para ser uma entrada triunfal se torna em dor e lamento e em maldição por causa da incredulidade, o missionário não se conforma com o século que vive, mas, o tenta renová-lo por sua nova mentalidade (Romanos 12:2). Em Hebreus 5:7, Jesus Cristo chora por todo o pecador que o Pai o deu, pois este sentira a dor do juízo dos pecados deles, o vocacionado sente o juízo dos pecados e se põe na brecha por estes, orando e chorando pelas almas perdidas (Oro também para que os olhos do coração de vocês sejam iluminados, a fim de que vocês conheçam a esperança para a qual ele os chamou, as riquezas da gloriosa herança dele nos santos Efésios 1:18).

Sentir esta alegria do Senhor em nosso coração é primeiro conhecer a dor que Ele sente pela alma perdida. A Palavra de Deus nos ensina que todo aquele que nele crê não será fundido (Rom. 10:11), então a missão da igreja é proclamar esta fé, ou seja, ir em busca do pecador, e ensiná-lo a clamar o nome de Jesus Cristo, pois, todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo (Rom. 10:13), mas há uma série de pergunta que podemos fazer: Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não houver quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? (Romanos 10:14,15ª) Todavia, a bíblia nos ensina que "Como são belos os pés dos que anunciam boas novas! " (Romanos 10:15), mas, para anunciar as boas novas temos de ter o sentimento de Cristo (I João 3:16) que o de se entregar para salvar o Mundo em Pecado, e mesmo se sofremos nos alegrarmos, pois achamos o que estava perdido e por este motivo nos alegrarmos por isto (E, chegando a casa, convoca os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque já achei a minha ovelha perdida. Lucas 15:6).

Jesus Proclama Sua Vitória Sobre o Mundo

Sermão do dia 06 de setembro 2015 na ADHagnos.


João 16:25-28

Neste texto há diversos ensinamentos que permeiam a Igreja do Senhor; contudo, é correto que o ensinamento mais evidente é o anuncio da vitória de Jesus sobre o Mundo que o rejeitara (João 1:11 Veio para o que era seu, e os seus não o receberam). Esta vitória não era pela aclamação de ninguém, ou por ter sido aceito no término de seu ministério por alguém (João 19:1-16), haja vista, os seus clamavam para a sua crucificação. Destarte, poderíamos perguntar qual a vitória de Jesus sobre o Mundo?
A bíblia trata Jesus como o Mestre Divino, aquele pelo qual todos se admiravam pelas doutrinas ensinadas por ele, desde terna idade (Luc. 2:41-52). Aos 33 anos aproximadamente esta sabedoria passa a estar em anuncio a todos por meio de parábolas, figura de linguagens. Havia uma razão para que Jesus pronunciasse seus ensinos por parábolas, é para que os que não foram chamados ao Reino de Deus não entendessem (Marc. 4:11-12). Mas, a não compreensão da mensagem de seus ensinos não era o seu objetivo; o objetivo de Cristo é revelar o Pai em sua encarnação (João 1:18 Ninguém jamais viu a Deus, mas o Deus Unigênito, que está junto do Pai, o tornou conhecido).
Para entender a vitória de Cristo devemos ter a compreensão de sua encarnação. Deus move o seu poder de maneira impossível, uma virgem deu a luz (Isa. 4:14; Luc. 1:31; 2:7). Este que nasceu era o Salvador do Mundo, o prometido dos profetas (Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade. João 1:14); Jesus é a graça e a verdade de Deus entre os homens. A humilhação de Jesus Cristo descrita em Filipenses 2:1-11 demonstra a obra de Cristo na cruz. O nosso Senhor Jesus não se teve como importante, mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens (Filipenses 2:7), para tomar o lugar deste homem no julgamento de Deus (II Cor. 5:21 Deus tornou pecado por nós aquele que não tinha pecado, para que nele nos tornássemos justiça de Deus).
A vitória de Cristo passa pela compreensão do seu Reino. O Reino de Cristo é o Reino do seu Pai, ou seja, não era deste Mundo (João 18:36 Disse Jesus: "O meu Reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas agora o meu Reino não é daqui"). Assim Cristo veio restituir o Reino de Deus aos seres humanos que o perderam no Éden; fazendo com que estes saíssem do império das trevas para o Reino de sua maravilhosa luz (Col. 1:13 Pois ele nos resgatou do domínio das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado), destruindo as amarras diabólicas, e pondo em vergonha todo poder maligno (E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo. Colossenses 2:15), os expondo publicamente pela Cruz (Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz. Colossenses 2:14).

                Cristo declara: “Embora eu tenha falado por meio de figuras, vem a hora em que não usarei mais esse tipo de linguagem, mas lhes falarei abertamente a respeito de meu Pai” (João 16:25). Cristo é o mistério revelado de Deus aos homens; Ele veio para revelar o Pai em sua magnitude (Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação. Colossenses 1:15). Com a sua morte Cristo restaura o contato do homem com Deus e o faz compreensível aos eleitos. Jesus veio ao Mundo, nascido homem, sofreu, morreu e ressuscitou (Romanos 14:8-9. Se vivemos, vivemos para o Senhor; e, se morremos, morremos para o Senhor. Assim, quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor. Por esta razão Cristo morreu e voltou a viver, para ser Senhor de vivos e de mortos), para salvar o homem através da Fé no nome do Filho de Deus (João 1:12. Contudo, aos que receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus). A vitória de Cristo foi se entregar para a salvação deste homem que lhe desprezava (João 3:16).

A vida no Espírito e o caminho da esperança

Sermão pregado em 10/09/2015




Vivemos em um Mundo a onde é primordial ter esperança, no Brasil nos últimos dias vimos um prenúncio de uma grande crise que irá abalar a maioria dos brasileiros; então o que resta para o povo é a esperança que tudo irá melhorar. Todavia, a esperança bíblica é muito diferente disto que entendemos como esperança, nesta série de estudos sobre uma vida no Espírito este último abordará o caminho da esperança mediante aos ensinos paulinos e, nos irá trazer um ensinamento da esperança real e não ilusória.
                O Apóstolo Paulo em seus escritos mostra um interesse de modo singular, comparado com os judeus de sua época, pelo tema escatológico ou como ele mesmo se refere a “parouisia” de Cristo. Dentro do pensamento paulino a vinda de Cristo é eminente, pois, a obra deste há importância central em alguns pontos: I) Que a plenitude dos tempos já era chegada com a vinda de Cristo (Gal. 4:4); II) Que o fins dos séculos já haviam chegados (I Cor. 10:11); e III) que em Cristo já havia uma Nova Criação (II Cor. 5:17). O entendimento escatológico não deve ser o último, mas o primeiro para o cristão, já que em Cristo tudo já se fez novo.
                Destarte, Paulo não exauriu a salvação para esta vida apenas ao contrário ele incentiva a crer em Cristo além desta vida (I Cor. 15:19). Então, ele aborda um tema sobre a parousia de Cristo de maneira sistemática e natural em seu pensamento, principalmente em I Tess. 4:13-18; 5:1-11. Aqui Cristo a esperança real vem para levar a sua igreja, uma esperança que nem a morte poderá usurpar, haja vista, que o Senhor Jesus venceu a morte e o seu povo vencerá também por ele (I Cor. 15:23).
                O Fim dos Tempos para Paulo é o Dia do Senhor (I Cor. 1: 8), simplesmente Ele virá e dará a todos quantos salvou esperança, gozo e coroa de glória, sua glória e alegria (I Tes. 2:19-20). A vinda de Cristo é a vitória permanente contra o mal, o onde, Ele a destruirá (II Tes. 2:8); e ratificador o seu pensamento que o Senhor Jesus Cristo aniquilará o mal em sua vinda (Gal. 5: 19-21; II Tes. 1:7-9), esta é a bendita esperança (Tit. 2:13), pois haverá verdadeiras bênçãos para nós nestes dias que o Senhor nos concederá por sua graça (Col. 1:12; II Tim. 4:8).
                Para Paulo que está em Cristo é Nova Criação (II Cor. 5:17), e esta nova criação gozará a vitória total quando a Soberania de Deus será plenamente manifestada (I Cor. 15:24-28); neste período todos os inimigos da humanidade serão vencidos, inclusive o aguilhão mais poderoso a todo o homem será quebrado, a saber o da morte (I Cor. 15:26). Neste momento a salvação alcançará a todos os eleitos no Mundo (Rom. 11:25), e todas as promessas a Israel serão cumpridas (Rom 11:26-31), os laços de escravidão adâmica acabou.

Vida no Espírito Santo e o Caminho da Fé

Sermão de quinta-feira dia 03 de setembro de 2015.
Culto de Ensino.


A palavra Fé na teologia paulina é muito utilizada cerca de 142 vezes, ainda o verbo crer 54 vezes e o adjetivo fiel 22 vezes. Ao utilizar esta palavra Paula tenta não deixar margem para dúvidas de que a fé é um fundamento para uma vida no Espírito. Quando é falado de fé, tem que entender que ela tem a sua parte na intelectualidade (Rom. 6:8; 10:9), todavia esta intelectualidade não é à base da fé. Logo é expresso por Paulo que Fé é compromisso, entrega de toda a vida ao Senhor.
                Para o entendimento paulino a FÉ é o firmamento para receber várias dádivas de Deus para a vida dos seus eleitos. É pela fé que o crente em Cristo Jesus recebe a “justiça de Deus” (Rom. 3:22; Fp. 3:9). Esta justiça em Cristo é dada pela justificação, que é pela fé (Rom. 3:28, 30; 5:1; Gal. 3:24), assim há a ratificação desta doutrina na citação do Texto do profeta Habacuque, donde deve ser compreendido desta forma: “Aquele que é justo, viverá pela fé” (Rom. 1:17; Gal. 3:11). Semelhantemente a propiciação é “pela fé” que o pecador toma posse (Rom. 3:25), como também o ato de adoração (Gal. 3:26).
                A ênfase é no patriarca Abraão para explicar o caminhar da fé; um grande exemplo: Creu Abraão a Deus, e isso lhe foi imputado como justiça (Rom. 4:3; 22-23; Gal. 3:6). Para os judeus Abraão era aquele que cumpriu a Lei de maneira exemplar, mas para Paulo não era o cumprimento da Lei, mas sim a Fé que ele teve que era importante. Um dos exemplos mais contundente da vida de Abraão é a resposta ao chamamento de Deus quando tinha 75 anos de idade. Abraão ouve a voz de Deus e obedece, mesmo sem saber para aonde iria (Gên. 12:1-4); esta obediência foi exclusivamente pela fé. Ele creu em Deus e, por isso se entrega por completo a mandato de Deus.
                Na tentativa de demonstrar que Deus estabelece o seu caminho pela graça, e não pela Lei; Paulo citará David em Romano 4: 6-8, aonde a obediência da lei é suprimida pela Fé na graça de Deus. Ao retornar a Abraão, ele trata na circuncisão uma prova de que Abraão foi aceito por Deus pela Fé, haja vista, que ele foi aceito por Deus antes de ser circuncidado; sendo assim, tornando-se Pai dos circuncisos como os dos incircuncisos.
Assim ele recebeu a circuncisão como sinal, como selo da justiça que ele tinha pela fé, quando ainda não fora circuncidado. Portanto, ele é o pai de todos os que crêem, sem terem sido circuncidados, a fim de que a justiça fosse creditada também a eles;
e é igualmente o pai dos circuncisos que não somente são circuncisos, mas também andam nos passos da fé que teve nosso pai Abraão antes de passar pela circuncisão.
Romanos 4:11,12
                Então é demonstrado o argumento de Paulo. Ele demonstra que a promessa feita a Abraão foi liga a ele pela “justiça da Fé” (Rom. 4:13). Assim, a graça é importante e não a Lei, e então é denominada esta conclusão de Fé (Rom. 4:14-16), pela qual todos os que crerem em Deus, recebem a sua graça. E, assim então todos os que são da fé, são denominados filhos de Abraão, e assim abençoados com o crente Abraão (Gal. 3:7-9).
                Paulo ao desenvolver sua tese chega ao ponto de estabelecer a característica do Cristão, que é a Fé. Os cristãos estão firmes na fé (I Cor. 16:13), permanecem na Fé (Col. 1:23), andam por Fé (II Cor. 5:7). Pela fé todo o salvo tem o acesso a Deus (Rom. 5:2 mediante a fé Ef. 3:12), e é pela fé que o Salvador Jesus habita em nos corações dos eleitos (Ef. 3:17). Todos que estão trilhando este caminho deverão buscar o crescimento da fé (II Cor 10:15; II Tes. 1:3; I Tim. 3:10). A progressão desta fé só é possível pelo amor (Gal. 5:6). A fé é capaz de produzir operações incríveis de vida cristã, como Paul ressalta aos Tessalonicenses (I Tes. 1:3). Destarte, a Fé é dada por Deus ao homem, e não é um produto do homem (Rom. 12:3).

                Concluindo, a Fé é o caminho que nos leva a Deus; enxergamos toda a obra salvífica de Deus através da fé. Temos de ter certeza da promessa divina pela Fé que nos foi dada pelo Filho de Deus.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Contextualização Missionária

Cultura

Cultura (do latim cultura), na definição do antropólogo Edward B. Tylor, é "todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade". Embora a definição de Tylor tenha sido problematizada e reformulada constantemente, tornando a palavra "cultura" um conceito extremamente complexo e impossível de ser fixado de modo único. Na Roma antiga, seu antepassado etimológico tinha o sentido de "agricultura" (significado que a palavra mantém ainda hoje em determinados contextos), como empregado por Varrão, por exemplo.

A cultura é, também, associada, comumente, a "altas" formas de manifestação artística e/ou técnica da humanidade, como a música erudita europeia (o termo alemão "Kultur" – "cultura" – se aproxima mais desta definição). Definições de "cultura" foram realizadas por Ralph Linton, Leslie White, Clifford Geertz, Franz Boas, Malinowski e outros cientistas sociais. Em um estudo aprofundado, Alfred Kroeber e Clyde Kluckhohn encontraram, pelo menos, 167 definições diferentes para o termo "cultura".

Por ter sido fortemente associada ao conceito de civilização no século XVIII, a cultura, muitas vezes, se confunde com noções de: desenvolvimento, educação, bons costumes, etiqueta e comportamentos de elite. Essa confusão entre cultura e civilização foi comum, sobretudo, na França e na Inglaterra dos séculos XVIII e XIX, onde cultura se referia a um ideal de elite. Ela possibilitou o surgimento da dicotomia (e, eventualmente, hierarquização) entre "cultura erudita" e "cultura popular", melhor representada nos textos de Matthew Arnold, ainda fortemente presente no imaginário das sociedades ocidentais.

Contextualização


Existem muitas dúvidas sobre o significado do termo “contextualização”. A primeira definição é de que se trata de trazer o assunto para o cotidiano das pessoas. É também, mas não é somente. Ele pode significar o ato de tentar colocar o objeto de estudo dentro de um universo em que ele faça sentido, calcular o centro da parábola para o melhor posicionamento de antenas, exemplificando. Entendido isso, evitam-se situações forçadas em que o transmissor se sente na obrigação de relacionar todo e qualquer conteúdo à vida dos alunos. Algumas vezes, aquilo que ele não consegue contextualizar, acaba até sendo excluído do currículo, o que prejudica e muito a aprendizagem da turma.

Entendendo a cultura

O que é cultura? Para o aluno que está começando a estudar antropologia missionária, muitas vezes essa pergunta é a reação inicial a uma coleção confusa de descrições, definições, comparações, modelos e paradigmas. É provável que na língua portuguesa, não exista outra palavra consentido mais abrangente que “cultura” e não haja outro campo de estudo mais complexo que a antropologia cultural. De qualquer maneira, a compreensão adequada do significado do termo é um pré-requisito para qualquer comunicação eficaz das boas novas do evangelho a um grupo humano distinto.
Para entender a cultura dever-se-á prestar a atenção nas “cascas”, ou seja, níveis de entendimento, à medida que se aproxima do seu verdadeiro cerne. Para isso, o missionário deve entender que ele está vendo este conjunto de informações pela primeira vez.
Primeiramente o missionário deverá observar o comportamento do povo. Essa é a casca mais superficial, observada por um missionário chegado a uma comunidade. Esta primeira caca é apontada, pela seguinte pergunta: O que se faz? Isto é Comportamento.
Assim, o observador se aperceberá que muitos dos comportamentos são aparentemente determinados por escolhas semelhantes, feitas pelos membros dessa sociedade. Então é introduzida uma segunda pergunta: O que é bom, ou melhor? Isto são Valores
Entender valores é o passo mais significativo no campo missionário, pois o evangelho é feito de valores, e estes valores são valores absoluto. Ao compreender os valores de uma cultura o missionário irá se deparar com crenças e mitos; compreende-los proporcionará o entendimento das crenças culturais. Essas crenças permitirá que o missioneiro chegue à terceira pergunta: O que é verdadeiro? CRENÇAS
                As crenças é o que mais traz dificuldade na contextualização missionária. Logo o missionário irá observar crenças operacionais (que afetam valores, e comportamento) e crença teóricas (convicções expressas em palavras, cujo impacto é praticamente nulo sobre os valores e o comportamento).
                No cerne de cada cultura está a sua cosmovisão. Cosmovisão é a maneira subjetiva de ver e entender o mundo, especialmente as relações humanas e os papéis dos indivíduos e o seu próprio na sociedade, assim como as respostas a questões filosóficas básicas, como a finalidade da existência humana, a existência de vida após a morte etc.; visão de mundo. Esta visão de Mundo é compreendida por interrogativas posteriores:

1ª O que é real? Que leva as discursões ultimas;
2ª Quem são? De onde viveram? Leva as discursões secundárias; e
3ª Qual o tempo que verdadeiramente importa? Leva as discursões primárias.

                Cada cultura presume respostas específicas a essas indagações, e essas respostas controlam e integram cada função, cada aspecto e cada comportamento da cultura. Quarta pergunta. O que é real? COSMOVISÃO.

Cosmovisão

O estudo das cosmovisões é um estudo das ideias que influenciam quase todo pensamento e toda decisão que uma pessoa faz no curso de sua vida. Literalmente, cosmovisão é tudo sobre tudo. Leia o discurso do apóstolo Paulo em Atos 17:22-31 e você verá uma síntese da visão cristã do mundo. Nessa passagem, Paulo discute suas visões sobre a origem e natureza do universo, a identidade e valor dos seres humanos, a natureza e a existência de Deus, a teoria cristã da verdade e do destino humano. Nessa breve passagem, Paulo responde às questões essenciais que todas as cosmovisões devem abordar. O estudo das cosmovisões é um tópico de importância crescente para os cristãos por causa da diversidade crescente das pessoas no mundo e as pressões sociais, políticas, morais e teológicas que disso resultam. À medida que as visões das pessoas sobre Deus, os seres humanos, a verdade, a moralidade, o comportamento humano, etc., se tornam mais diversos, o potencial para o conflito e a confusão cresce. Não é incomum uma disputa intensa irromper quando duas pessoas se envolvem numa conversação sobre algumas das principais questões morais dos nossos dias. A fonte de discórdia é geralmente uma diferença em como cada pessoa vê o mundo.
Os Elementos de uma Cosmovisão
Os Elementos de uma Cosmovisão Toda e qualquer cosmovisão toma partido sobre os pontos listados abaixo. O desafio é discernir qual é esse partido e como ele é justificado.
1. Cosmologia – toda cosmovisão tem uma explicação para a origem e para a natureza do universo.
2. Teologia – toda cosmovisão, incluindo o ateísmo, toma uma posição sobre a existência e a natureza de Deus.
3. Antropologia – a identidade e o valor dos seres humanos.
4. Epistemologia – a natureza e a justificativa para o conhecimento/ verdade.
5. Axiologia – a identidade e a natureza dos valores.
6. História – o padrão e a importância dos eventos históricos.
7. Destino – o que acontece às pessoas após a morte.

EM BUSCA DE UMA CONTEXTUALIZAÇÃO AUTÊNTICA

"Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.

E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus."
Romanos 12:1,2
CONCEITOS PARA CONTEXTUALIZAÇÃO
·          CONTEXTO: Encadeamento das ideias dum escrito; Contextura: "Todo o contexto enfim da vida, / por diversos pedaços repartida"...; Aquilo que constitui o texto no seu todo; composição; Conjunto; todo, totalidade: "A incorporação do romantismo no contexto nacional haveria de processar-se em termo de uma conciliação"; Argumento, assunto. {Dicionário Aurélio]

No sentido teológico-religioso - contexto é tem os seguintes sentidos:
Contexto Bíblico é o texto completo, do qual alguns versículos ou capítulos fazem parte; Contexto Cultural é o ambiente caracterizado por uma certa cultura ou é influenciado por vários fatores culturais. Neste sentido, o contexto cultural exerce grande pressão sobre os cristãos.
·         CONTEXTURA: Ligação entre as partes de um todo; encadeamento, o mesmo que contexto.

·         CONTEXTUALIZAÇÃO: Ato de conformar, adaptar, ou encaixar, uma ideia, conceito, atividade, procedimento, a um contexto cultural imediato ou remoto. Contextualização tem sido vista também, como uma atualização de coisas e procedimento obsoletos a uma realidade mais dinâmica e relevante.

·         CULTURA HUMANA à “é sempre um processo dinâmico para o enredo da vida. Reúne as tradições do passado, corresponde e se acomoda à modernidade de uma sociedade tecnológica e cada vez mais urbana, e está em interação constante com os principados e potestades supraculturais. ...Cada geração aprende de novo e formula sua própria cultura. Há, portanto , um grau considerável de flexibilidade e relatividade no centro focal da cultura humana”[Bruce J. Nicholls em “Contextualização: uma Teologia do Evangelho e Cultura” Pg.42,43]

·         CULTURAL à Relativo a Cultura humana, ou algo ligado a Cultura deste lado de cá do mundo natural em contraste com o mundo sobrenatural.

·         SUPRA-CULTURAL à Relativo a coisas, seres e fatos do mundo sobrenatural, ou seja, que influenciam a cultural, mas estão acima e além dela, e de uma percepção e explicação cultural. Por exemplo, a influência dos demônios.

·         TRANS-CULTURAL à Termo missionário relativo a comunicação entre duas culturas diferentes.

·         TEOLOGIA BÍBLICA DOGMÁTICA à Teologia baseada nos fundamentos bíblicos, tendo-os como verdades absolutas e eternas. De modo, que vence as pressões culturais que tentam mudá-la.

·         TEOLOGIA CONTEXTUALIZADA à No julgamento de Bruce J. Nicholls: “A teologia contextualizada de modo distinto da teologia bíblica dogmática, é sempre relativa”. Bruce acrescenta um aspecto importante da contextualização. Qual deve ser  o ponto de partida da contextualização ? Parte-se o evangelho para a cultura, ou da cultura para o evangelho? Examinemos esta questão mais adiante.

·         EVANGELHO CONTEXTUALIZADO à É o evangelho que sofreu adaptações e mudanças para se tornar mais aceitável e poder se encaixar a um determinado contexto formado por culturas, filosofias,  teologias, e conceitos religiosos, sociológicos e antropológico que de alguma maneira conflitam ou não valorizam muito a Bíblia.

·         EVANGELHO PRAGMÁTICO à Nos tempos atuais, é quase sinônimo de evangelho contextualizado, porque, especialmente no meio neo-evangélico e liberal, a contextualização é quase sempre baseada no pragmatismo filosófico e antropológico, ou seja, o evangelismo é  feito de modo que agrade ao homem, lhe proporcionando conforto, entretenimento, sucesso, mesmo que tenha de se valer de metodologias  mundanas de psicologia popular e entretenimento , além das técnicas comerciais de marketing  enganoso, para fisgar o candidato.


Teologia da Contextualização


Quando Hesselgrave afirma que contextualizar é tentar comunicar a mensagem, trabalho, Palavra e desejo de Deus de forma fiel à Sua Revelação e de maneira significante e aplicável nos distintos contextos, sejam, culturais ou existenciais, ele expõe um desafio à Igreja de Cristo: comunicar o Evangelho de forma teologicamente fiel e ao mesmo tempo humanamente inteligível e relevante. E este talvez seja o maior desafio de estudo e compreensão quando tratamos da teologia da contextualização. Historicamente, a ausência de uma teologia bíblica de contextualização tem gerado duas consequências desastrosas no movimento missionário mundial: o sincretismo religioso e o nominalismo evangélico.
Antes, porém, gostaria de expor introdutoriamente sobre a relevância da contextualização na apresentação do Evangelho com base em Mateus 24:14. Ali Jesus se reunia com seus discípulos, pouco antes de ser elevado aos céus, e responde a estes sobre os sinais que antecederão a sua vinda. Após dissertar sobre evidências mais cosmológicas (guerras e rumores de guerras) e eclesiológicas (perseguição e falsos profetas) Jesus lança uma evidência puramente missiológica dizendo que “será pregado o Evangelho do Reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então virá o fim”.
A expressão grega para “e será pregado” tem como raiz kerygma, uma proclamação audível e inteligível do Evangelho paralelamente à martyria que chama um sentido mais pessoal, de testemunho de vida. Esta ação kerygmática aponta para o fato de que o Evangelho será pregado de forma compreensível. O “mundo” aqui exposto no texto é a tradução de oikoumene que significa “mundo habitado”. A ideia textual, portanto, não é geográfica, territorial, mas sim demográfica, onde há pessoas, mostrando que este Evangelho do Reino será pregado kerygmaticamente, inteligivelmente, em todo o mundo habitado. A forma de isso acontecer, segundo o texto, é através do testemunho a todas as nações. A raiz para “testemunho” aqui é martyria que nos ensina que esta ação proclamadora, kerygmática, do Evangelho acontecerá através de uma Igreja martírica, que tenha o caráter de Cristo. Ou seja, apenas os salvos pregarão este Evangelho do Reino. Finaliza a frase dizendo que o testemunho chegará a todas as nações, onde traduzimos o termo ethnesin, de ethnia, para nações, ou seja, grupos linguística e culturalmente definidos. Poderíamos parafrasear o verso 14 dizendo que “o Evangelho do Reino será proclamado de forma inteligível e compreensível por todo o mundo habitado, através do testemunho martírico, de vida, da Igreja, a todas as etnias definidas”. A frase final nos diz que “então virá o fim” e “fim” aqui (telos) aponta para a volta do Senhor Jesus, ligada comumente à sua parousia, seu retorno.
O princípio bíblico da comunicação. Jesus nos ensina diversas vezes que a transmissão do conhecimento do Evangelho não será uma ação realizada sem a participação comunicativa da igreja. Esta participação envolve duas ações principais: a vida e testemunho da Igreja, bem como a atitude de proclamar, expor, o Evangelho de Cristo. Esta comunicação do Evangelho, portanto, em uma perspectiva transcultural, necessita de um trabalho de “tradução” em duas áreas específicas: a língua e a cultura. As línguas dispõem de códigos diferentes para viabilizar a comunicação e o mesmo ocorre com a cultura. Quando se expõe a um Inuit, ou esquimó, que o sangue de Jesus nos torna branco como a neve, ele rapidamente nos perguntaria qual categoria de branco, já que em sua visão culturalizada de quem convive com a neve e o gelo por milênios, há treze diferentes tipos de “branco”. Ignorar tal extrato cultural culminará em uma pregação rasa ou distorcida da Palavra de Deus.
Alguns princípios textuais podem nos ajudar nesta introdução, pensando em Mateus 24:14. Percebemos que a transmissão de uma mensagem inteligível em sua própria língua e contexto, portanto contextualizada, é pressuposto para o cumprimento da grande comissão, já que a nós cabe não somente viver Jesus, mas também proclamá-lO de forma compreensível. Apenas a Igreja, redimida, cumprirá esta tarefa, ou seja, não é o Cristianismo que evangelizará o mundo, mas, sim a Igreja redimida, que passou pelo novo nascimento.
Alguns pressupostos que utilizado para a compreensão deste assunto.
 1. A Palavra é supracultural e atemporal, portanto viável e comunicável para todos os homens, em todas as culturas, em todas as gerações. Cremos, assim, que a Palavra define o homem e não o contrário.
 2. Contextualizar o Evangelho não é reescrevê-lo ou moldá-lo à luz da Antropologia, mas sim traduzi-lo linguística e culturalmente para um cenário distinto a fim de que todo homem compreenda o Cristo histórico e bíblico.
3. Apresentar Cristo é a finalidade maior da contextualização. A Igreja deve evitar que Jesus Cristo seja apresentado apenas como uma resposta para as perguntas que os missionários fazem – uma solução apenas para um segmento, ou uma mensagem alienígena para o povo alvo.
É preciso avaliar os pressupostos teológicos a fim de guiarmos nossa ação missionária. Martinho Lutero, crendo na integralidade da verdade Bíblica, expôs um Evangelho que fosse comunicável, na língua do povo, com seus símbolos culturais definidos, porém um Evangelho escriturístico e sem diluição da verdade. Sem receio, por diversas vezes ensinou Melanchton dizendo: “prega de forma que odeiem o pecado ou odeiem a você”. Se por um lado defendeu uma contextualização eclesiológica traduzindo a Bíblia para a língua do povo, tendo cultos com a participação dos leigos, pregando a Palavra dentro do contexto da época, por outro deixou claro que o conteúdo da Palavra não deve ser limitado pelo receio do confronto cultural. Se sua sensibilidade cultural fosse definidora de sua teologia, e não o contrário, teríamos tido uma Reforma humanista e não da Igreja. Teria sido o início de um movimento de libertação apenas do pensamento e da expressão, um grito por justiça social que não inclui Deus e nem a salvação, ou um apelo pelo resgate da identidade cultural, mas não a condução do povo ao Reino de Deus.

Três perigos da contextualização
O primeiro perigo, que é político, tem sua origem na natural tendência humana de impor a outros povos sua forma adquirida de pensar e interpretar, prática esta realizada em grande escala pelos movimentos imperialistas do passado e do presente, bem como por forças missionárias que entenderam o significado do Evangelho apenas dentro de sua própria cosmovisão, cultura e língua. Desta forma as torres altas dos templos, a cor da toalha da ceia, a altura certa do púlpito e as expressões faciais de reverência tornam-se muito mais do que peculiaridades de um povo e de uma época. Misturam-se com o essencial do Evangelho na transmissão de uma mensagem que não se propõe a resgatar o coração do homem, mas sim moldá-lo à uma teia de elementos impostos e culturalmente definidos apenas para o comunicador da mensagem, apesar de totalmente divorciados de significado para aqueles que a recebem.
As consequências de uma exposição política do Evangelho tem sido várias, porém mais comumente encontraremos o nominalismo, em um primeiro momento e, por fim, o sincretismo quase irreversível. David Bosch afirma que o valor do Evangelho, em razão de proclamá-lo, está totalmente associado à compreensão cultural do povo receptor. O contrário seria apenas um emaranhado de palavras que não produziriam qualquer sentido sóciocultural. George Hunsburger observa também que não há como pregarmos um Evangelho a-cultural, pois o alvo de Cristo ao se revelar na Palavra foi atingir pessoas vestidas com sua identidade humana. A perigosa apresentação política do Evangelho a que nos referimos, portanto, confunde o Evangelho com a roupagem cultural daquele que o expõe, deixando de apresentar Cristo e propondo apenas uma religiosidade vazia e sem significado para o povo que a recebe.
Um segundo perigo, que é pragmático, pode ser visto quando assumimos uma abordagem puramente prática na contextualização. Como a contextualização é um assunto frequentemente associado à metodologia e processo de campo, somos levados a entendê-la e avaliá-la baseados mais nos resultados do que em seus fundamentos teológicos. Consequentemente, o que é bíblico e teologicamente evidente se torna menos importante do que aquilo que é funcional e pragmaticamente efetivo. Estou convencido de que todas as decisões missiológicas devem estar enraizadas em uma boa fundamentação bíblico-teológica se desejamos ser coerentes com a expressão do mandamento de Deus (At 2:42-47). Do ponto de vista puramente pragmático, porém, é uma igreja que contextualiza sua mensagem sendo sensível às nuances de uma cultura matriarcal, tradicional, encarnacionista e mística. Devemos ser lembrados que nem tudo o que é funcional é bíblico. O pragmatismo leva-nos a valorizar mais a metodologia da contextualização do que o conteúdo a ser contextualizado. A apresentação pragmática do Evangelho, portanto, privilegia apenas a comunicação com seus devidos resultados e esquece ater-se ao conteúdo da mensagem comunicada.
Um terceiro perigo, que é sociológico, é aceitar a contextualização como sendo nada mais do que uma cadeia de soluções para as necessidades humanas, em uma abordagem puramente humanista. Esta deve ser nossa crescente preocupação por vivermos em um contexto pós-cristão, pós-moderno e hedônico. Isto ocorre quando missionários tomam decisões baseadas puramente na avaliação e interpretação sociológica das necessidades humanas e não nas instruções das Escrituras. Neste caso os assuntos culturais, ao invés das Escrituras, determinam e flexibilizam a teologia a ser aplicada a certo grupo ou segmento. O desejo por justiça social não deve nos levar a esquecermos da apresentação do Evangelho. Vicedon afirma que somente um profundo conhecimento bíblico da natureza da Igreja (Ef. 1:23) irá capacitar missionários a terem atitudes enraizadas na Missio Dei e não apenas na demanda da sociedade. A defesa de um Evangelho integral e desejo de transmitir uma mensagem contextualizada não devem ser pontes para o esquecimento dos fundamentos da teologia bíblica.
Pressupostos bíblicos para a contextualização
Escrevendo aos Romanos (1:18-27) o apóstolo Paulo nos introduz ao conceito da contextualização em oposição à inculturação trazendo à tona verdades cruciais para a proclamação do Evangelho dentro de um pressuposto escriturístico e revelacional.
                No versículo 18, Paulo nos apresenta a um Deus irado com a postura humana e que se manifesta contra toda a “impiedade” (quando o homem rompe seu relacionamento com Deus e os Seus valores divinos) e “perversidade” (quando o homem rompe seu relacionamento com o próximo e seus valores humanos). Expõe um homem corrompido pela injustiça e criador da sua própria verdade.
                Nos versículos 19 e 20, Deus se manifesta através da criação e há aqui um elemento universal: um Deus soberano, criador, controlador do universo e detentor da autoridade sobre a criação. Os homens citados no verso 18 tornam-se indesculpáveis por ser Deus revelado na criação “desde o princípio do mundo”, sendo revelado tanto o “seu eterno poder”, quanto “a sua própria divindade”. Portanto, perante um homem caído, existente em sua própria injustiça, impiedoso e perverso, Paulo não destaca soluções humanas, eclesiásticas ou mesmo sociais. Ele nos apresenta a Deus. Na teologia paulina a solução para o homem não é o homem, mas é Deus e Sua revelação.
Nos versos 21 a 23, o homem tenta manipular Deus e Sua verdade, pois apesar deste conhecimento natural, pela criação, “não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças”. Fizeram altares e criaram seus deuses segundo seus corações, ânsias e desejos. Deuses manipuláveis, comandados, um reflexo da vontade humana caída. Assim, tais homens se “tornaram nulos em seus próprios raciocínios” mudando “a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis”. O homem, portanto, não é condenado por não conhecer a história bíblica. Ele é condenado por não glorificar a Deus. Os homens não são condenados por não ouvirem a Palavra, são condenados pelo pecado.
Nos versos 24 a 27, tais homens, em seu mundo recriado com as cores do pecado e injustiça “mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador”. A resposta de Deus foi o juízo e o texto nos diz que Ele entregou os homens “à imundícia” como também às “paixões infames”.
Poder-se-á notar princípios bíblicos para a contextualização missionária:
1. Há uma verdade universal e supracultural: Deus é soberano e dono de toda glória. Esta verdade fundamenta a proclamação do Evangelho.
2. O pecado intencional (perversidade e impiedade) nos separa de Deus. Não há como apresentar Deus buscando se relacionar com o homem sem expor o pecado humano e seu estado de total carência de salvação.
3. Somos seres culturalmente construtores de ídolos. É comum ao homem caído gerar uma ideia de deus que satisfaça aos seus anseios sem confrontá-lo com o pecado. Esta atitude é encontrada em toda a história humana e não colabora para o encontro do homem com a verdade de Deus.
 4. A mensagem pregada por Paulo é contextualizada expondo Deus em relação à realidade da vida e queda humana. Porém não é inculturada, pregando um Deus aceitável, mas sim um Deus verdadeiro. Se amenizarmos a mensagem do pecado contribuiremos para a incompreensão do Evangelho.
Contextualização na perspectiva bíblica
Vejamos o assunto da contextualização a partir da experiência bíblica de Paulo em três momentos específicos. Apesar de Paulo ser o apóstolo para os gentios (Gal. 1:16) ele era um judeu devoto. Desta forma, a partir de seus sermões e ensinos podemos garimpar princípios norteadores da contextualização da mensagem.
                Observaremos três passagens bíblicas no livro de Atos nas quais Paulo proclama o Evangelho. Primeiramente a um grupo formado puramente por judeus, em outra ocasião a judeus, mas com presença gentílica simpatizante do judaísmo e por fim para gentios totalmente dissociados do mundo judaico e de seus valores vetero-testamentários. Ficará evidente, creio que Paulo jamais compromete a autenticidade da mensagem bíblica, porém a comunica com aplicabilidade cultural de forma que haja boa comunicação utilizando os elementos necessários para tal.
                Em Atos 9:19-22 encontramos Paulo em Damasco com os discípulos proclamando Cristo nas sinagogas apresentando-O como “o Filho de Deus” e “confundia os Judeus que moravam em Damasco, demonstrando que Jesus é o Cristo”. Aqui encontramos Paulo logo após ser salvo, expondo nas Escrituras que o Jesus que ele perseguia no passado tão próximo era de fato o Filho de Deus. A expressão grega para “demonstrando” (que Jesus era o Messias prometido), no verso 22, implica em demonstração com evidências objetivas, visíveis, o que nos dá a impressão que Paulo o fazia através do próprio texto sagrado, as Escrituras. Sua forma de pregação seguia a mesma dinâmica que ele viria a usar em todo o seu ministério entre os Judeus: demonstrando a partir da comprovação escriturística que Jesus é o Messias esperado (At 17:1-3). Paulo bem sabia que se alguém desejasse mostrar aos judeus que uma pessoa era o Messias, teria que fazê-lo através das Escrituras. Por isso sua abordagem foi baseada nas Escrituras, centralizada na promessa do Messias e promotora de evidências de que este era Jesus. Paulo aqui falava aos filhos de Israel, que se viam como os filhos da Promessa e, portanto, em toda sua pregação ele utilizava elementos históricos e marcos da relação entre Deus e Seu povo escolhido.
                Em Atos 13: 14-16, encontramos Paulo “atravessando de Perge para a Antioquia da Pisidia, indo num sábado à sinagoga”. Logo depois ele, erguendo a mão, passou a lhes proclamar a Cristo. Neste texto o grupo, culturalmente definido, é o mesmo de antes: judeus. Havia, porém a presença gentílica de simpatizantes da fé judaica. Paulo inicia com um dos principais fatos da história judaica, o Êxodo. Ele então os relembra da história de Israel até Davi quando então, intencionalmente, lhes introduz a promessa do Messias (At 13:23) e a liga a Jesus. Interessante como Paulo neste caso prega a Cristo a partir do “Deus de Israel”, e se fundamenta no Antigo Testamento para lhes apresentar o Messias por saber que os gentios ali presentes não apenas conheciam o Antigo Testamento, mas também procuravam segui-lo. Porém sua pregação tem também forte teor moral e escatológico, que a distingue da primeira em Atos 9, apenas para aos judeus, demonstrando sua sensibilidade para um auditório misto, mesmo que prioritariamente judeu e judaizante. No verso 39, Paulo utiliza um texto de inclusão (todo aquele), que se contrapõe ao discurso mais exclusivo que seguia com os judeus, dizendo que todo aquele que cresse seria salvo. Certamente os gentios judaizantes, fora da história biológica de Israel, se viam aí incluídos: um Messias judeu para judeus e gentios.
                Na terceira passagem, em Atos 17: 16-31, Paulo proclama a Cristo para gentios que nenhum conhecimento tinha das Escrituras. Paulo está em Atenas, o centro filosófico do mundo da época, e é conduzido até o areópago pelos epicureus e estoicos. Neste momento Paulo se encontrava em um cenário totalmente paganizado sem pressupostos judaizantes. O sermão de Paulo desta vez não se iniciou nas Escrituras vetero-testamentárias ou mesmo na promessa do Messias. Paulo lhes pregou Deus, a partir das evidências da criação e do deus desconhecido, “pois este que adorais sem conhecer é precisamente aquele que eu vos anuncio” (At 17: 23). Passa então a apresentar-lhes os atributos de Deus que “fez o mundo.... sendo Ele Senhor do céu e da terra” (v. 24), “de um só fez toda a raça humana” (v. 26), “não está longe de cada um de nós” (v.27), “notifica aos homens que todos em toda parte se arrependam” (v.30), “por meio de um varão... ressuscitando-o dentre os mortos” (v.31). Note que no verso 24, Paulo utiliza Theos para se referir ao “Deus que fez o mundo”, sendo o mesmo termo utilizado (Theos) para mencionar o deus desconhecido. Ele utiliza da ideia existente de deus para apresentar revelacionalmente o Deus da Palavra, criador de todas as coisas. O fim da mensagem é o mesmo: Jesus que morreu e ressuscitou.
                Notem que aos judeus Paulo lhes fala sobre “o Deus da promessa”, Aquele que lhes trouxe do Egito, pois estes conheciam o Deus da Escritura e se viam como os filhos da promessa. Eles entendiam que Deus se revelou a seus pais, que interagiu com seu povo ao longo da história, que lhes deixou as Escrituras.
                Ao segundo grupo Paulo lhes fala sobre o Deus das promessas e da história de Israel, mas, como havia entre eles gentios, lhes fala também do Messias que há de vir para a salvação de todo aquele que crê. Percebemos aqui neste texto que Paulo apresenta-lhes o Evangelho com fortes evidências escriturísticas, para os judeus, além de um forte apelo moral e escatológico, para os gentios judaizantes.
                Ao terceiro grupo, puramente gentílico, o Messias que há de vir não lhes transmitia nenhuma mensagem aplicável à sua história, pois era visto tão somente como o Messias Judeu. Eles não tinham as Escrituras que O revelavam nem as promessas e alianças. Eles não se enxergavam como filhos da promessa e não se identificavam com Abrão e Moisés. Porém eles se viam como os filhos da Criação. Possuíam tremenda atração pelas obras criadas e fascinação pela figura do Criador. Eram caçadores de respostas, estudiosos da religiosidade, qualquer religiosidade. Portanto, Paulo lhes pregou o Deus da criação, aquele que era antes de qualquer outro, que detém o poder de fazer surgir, e mantém a humanidade e o cosmos. Ele lhes fala demoradamente sobre os atributos deste Deus que é único, soberano, próximo e perdoador. Finalmente lhes fala de Jesus como o centro do plano salvífico de Deus, apresentando-O como o Messias para toda a humanidade.
                Algumas conclusões a partir do modelo Paulino de exposição do Evangelho, em relação à contextualização da mensagem.
 1. A mensagem, em um processo de comunicação contextual, jamais deve ser diluída em seu conteúdo. A fidelidade às Escrituras deve ser nossa prioridade à semelhança de Paulo que falou da ressurreição de Cristo no areópago, mesmo sabendo que seria um tema controverso para a crença filosófica presente.
 2. O público alvo, seus pressupostos culturais, língua e entendimento sobre Deus são fatores relevantes para a apresentação do Evangelho. Paulo não pregou a Cristo da mesma forma aos três grupos. Sua sensibilidade ao ouvinte conduziu sua abordagem.
 3. O uso de simbologias culturais explicatórias das verdades bíblicas podem ser utilizadas desde que apresentem claramente a relevância do Evangelho. Paulo fez isso utilizando o “deus desconhecido” partindo de um elemento sócio-cultural para expor, com clareza, a verdade do Evangelho. Em outros momentos ele o fez a partir da criação, do contraste entre Deus e os deuses adorados e do próprio sentimento humano de desencontro com a vida e perdição.
 4. O Evangelho deve ser explicado a partir de si mesmo e não da cultura. O conteúdo do Evangelho não é negociável. Quando Paulo fala aos judeus sobre o Messias e lhes apresenta Jesus, ele estava ali em uma linha “segura” de comunicação. Porém, seu desejo por criar uma atmosfera propícia para a comunicação não fez com que minimizasse as verdades mais confrontadoras, que o levariam a ser expulso, ignorado e questionado.
5. O alvo final da apresentação da mensagem é levar o homem ao conhecimento de Cristo e não simplesmente comunicar. A comunicação de Paulo pavimentava o auditório para a apresentação da verdade, tanto para os filhos da promessa quanto para os filhos da criação.
 6. A contextualização da mensagem, linguística e culturalmente, é um instrumento para uma boa comunicação, que transmita o Evangelho de forma clara e compreensível, e Paulo a utilizava abundantemente ao falar distintamente a judeus e gentios, escravos e livres, senhores e servos. Também Jesus, ao propor transformar pescadores em pescadores de homens, ao utilizar em seus sermões à candeia que ilumina, a semente lançada em diferentes solos, o joio e o trigo no mesmo campo, a dracma que se perdeu, as redes abarrotadas de peixes, fez isso para que o essencial da Palavra chegue de maneira inteligível para a pessoa, sociedade e cultura que o ouve.
 7. O resultado esperado da apresentação contextualizada do Evangelho é o arrependimento dos pecados e sincera conversão. Qualquer apresentação do Evangelho que leve o homem a sentir-se confortável em seu estado de pecado é certamente inconclusiva e parcial. Paulo deixa isto bem claro quando lhes expõe um Evangelho libertador e transformador.


Três Modelos de Contextualizações
Um dos maiores segredos da contextualização e da vida transcultural é a humildade (Fil. 2:3). Sem este sentimento é impossível nos despirmos o suficiente do nosso egoísmo e etnocentrismo (a convicção de que nossa cultura é a única certa) para a convivência e identificação com as pessoas diferentes de nós. Humildade é essencial para acertar o caminho da unidade, do amor e do serviço mútuo tanto em nossas igrejas de origem como trabalhando com equipes e comunidades de pessoas de outras culturas.

Há três modelos no texto de Filipenses 2.1-18 que demonstram a importância da humildade para nossa missão de levar o verdadeiro Evangelho ao mundo.

1. O Modelo de Jesus

Jesus é o supremo exemplo da humildade na contextualização. Ele é Deus, mas abriu mão de todos os Seus direitos para poder completar a Sua missão. Tomou a forma de homem e, em obediência ao Pai, submeteu-se à morte na cruz, a mais degradante e penosa morte possível, sinal de maldição. A Sua identificação era completa no sentido de compartilhar a vida cotidiana, da comunicação eficaz e do sacrifício em favor dos outros. Jesus tomou nosso lugar (Gl 3.6-13) como servo do Pai, dos homens e das mulheres que Ele veio resgatar da condenação. Paulo exorta a igreja para ter este mesmo sentimento de se humilhar como Jesus o fez (vs. 5).

2. O Modelo de Paulo

Este apóstolo entendeu a importância do exemplo de Jesus na sua própria contextualização missionária. Ele vivia para servir a Deus e aos outros. Não tinha sacrifício grande demais para ele no cumprimento do seu ministério em levar o Evangelho e plantar igrejas entre judeus e gentios (vs. 17).

O sacrifício de Paulo fica claro no relato de Atos 16. 11-40 sobre a sua contextualização em Filipos. Chegando lá, logo foi procurar o lugar onde tinha abertura com os judeus e os tementes a Deus. A mulher rica, Lídia, atendeu o apelo da fé em Jesus e foi batizada com a sua família. Depois, uma jovem possessa foi liberta, possivelmente se integrando ao grupo. O preço deste milagre foi alto para os missionários. Foram açoitados e levados à prisão, onde, colocados no tronco, não se indignaram ou reclamaram seus direitos, mas cantaram louvores a Deus.

O sofrimento por causa do Evangelho levado à jovem e aos outros ouvintes não sufocou o louvor e a fidelidade destes servos do Senhor. Paulo e Silas sabiam estar presentes, achar portas abertas, evangelizar de forma relevante e levar as pessoas à fé e ao discipulado, sem medir consequências pessoais.

3. O Modelo da Igreja
Além de Jesus e Paulo, há um terceiro modelo de contextualização, que é a igreja recémformada. Após a libertação milagrosa da prisão em Filipos, Paulo e Silas levam o carcereiro à fé em Jesus que também é batizado com a sua casa e se tornam membros do grupo de crentes em Filipos. Há, então, uma igreja nova, feita de uma mulher rica e um carcereiro, com suas respectivas casas (que incluía filhos, escravos e servos), mais uma moça que tinha sido endemoninhada. É a esta igreja que Paulo roga para ter unidade – rico com pobre, nobre com funcionário, crianças e jovens com adultos, senhores e escravos.
É através desta igreja que o mundo, descrito como “geração pervertida e corrupta” (vs. 15), tem que ver a diferença que Cristo faz nas vidas e na comunidade cristã. Elas não podem ser iguais ao mundo, mas “luzeiros” que resplandecem no escuro que as cerca.
Em nenhum momento devemos entender a contextualização de Jesus, dos missionários ou da igreja como identificação com o mundo. Houve profunda identificação com pessoas, inclusive identificação sacrificial, mas não incluía adotar os costumes pervertidos da cultura. A igreja era tão diferente que a glória de Deus brilhava através das suas vidas e dos seus relacionamentos como se fosse uma estrela no escuro da noite.
Com estes modelos, fica claro que a contextualização não é como alguns pensam, uma identificação com a cultura. É uma identificação profunda com as pessoas da cultura, sem imitar o que elas fazem para poder levá-las ao discipulado e à fidelidade à Palavra (vs. 16 – “preservando a palavra da vida”) e ao senhorio de Jesus Cristo (vs. 9-11). Por necessidade isso vai fazer com que sejam diferentes da cultura, mas como luzes, não legalistas. Não estarão fechados dentro de quatro paredes, mas, com humildade, unidos em amor. Juntos mostrarão a diferença que Cristo faz na vida daqueles que realmente O aceitaram como Salvador e Senhor das suas vidas.

Fator Melquisedeque

O Fator Melquisedeque é designação dada a consciência universal da existência de um Deus único, entre as diversidades de expressões culturais e religiosas dos diferentes povos e civilizações ao longo da história.
O primeiro a utlizar o termo foi o teólogo Don Richardson, autor do livro de mesmo nome: "Fator Melquisedeque", que através de relatos antropológicos expõe um testemunho de Deus nas culturas através do mundo. Melquisedeque é uma alusão ao sacerdote "do Deus Altíssimo", considerado Rei de Salém, a qual haveria de se tornar na cidade sagrada de Jerusalém. Em um relato bíblico, esse sacerdote-rei, abençoa Abraão, "o pai da Fé", que o oferta a décima parte dos despojos de guerra ao qual estava retornando. A referência a esse personagem místico aponta para a existência do culto monoteísta anterior às grandes religiões atuais.
Conceito aceito pela Teologia contemporânea, mais especificamente pela Missiologia, reconhece os hábitos estranhos ao cristianismo, não como barreiras ao evangelismo, ou ao convívio social, mas como ponte entre visões diferentes de uma mesma verdade, denominada "substância católica", ou universal.
A revelação geral é vista como o ato inicial de Deus, o se revelar à humanidade como criador de todos e de tudo. Esta revelação divina pode ser vista nas religiões originais de vários povos e tribos remotas, isto é, que estão longe de qualquer influência estrangeira, em que nelas se encontram noções monoteístas, às vezes, muito semelhantes à narrativa bíblica. Segundo a própria Bíblia, Deus criou os seres humanos, mas estes os esqueceram, e o substituíram por deuses menores (ídolos). Porém, como visto em muitos destes povos, não o esqueceram, totalmente, tendo alguns deles mantido tradições peculiares, tais como o sentimento da necessidade de ter seus pecados apagados e a promessa divina de perdão futuro. Muitos destes povos até mesmo acreditam (ou acreditavam) que um mensageiro estrangeiro viria, portando um livro no idioma nativo deles, e que, por meio deste livro, os conduziria à reconciliação com Deus.
Estas noções encontradas nas culturas e tradições desses povos seriam, segundo Richardson, um tipo de preparador, para a chegada do Evangelho a eles, tal como a Lei de Moisés o foi para os judeus.
A revelação especial, no entanto, é vista como a solução apresentada na Bíblia para o problema de reconciliação entre Deus e toda a humanidade.
O livro de Gênesis mostra que Deus revelou-se a Abraão e lhe prometeu uma grande descendência, e que, por meio de sua descendência, Ele abençoaria a todos os povos da Terra. Como evidenciado na Bíblia, este propósito foi sendo cumprido ao longo dos anos chegando ao ápice na pessoa de Jesus Cristo, por meio de quem veio o perdão de Deus para todos. Caberia, agora, por meio dos cristãos, espalhar essa solução, há muito esperada, aos povos do mundo, para que o objetivo de Deus (sobre o qual ele jurou por Si mesmo, a Abraão, que cumpriria) fosse totalmente realizado.
Richardson revela que há sete fatos pré-abraâmicos que determinam se uma religião nativa reteve alguma parte da verdade sobre Deus, apresentada na Bíblia. São elas:
O fato da existência de Deus;
A criação do mundo e da humanidade;
A rebelião e queda do homem: o pecado da humanidade afastou a todos de Deus.
A necessidade do sacrifício: o sacrifício, como mostrado na Bíblia, simboliza a necessidade de ter alguém justo pagando pelo pecado de outro, isto é, o bode expiatório.
O grande Dilúvio: o Dilúvio é apresentado em muitas tradições como o ato de Deus
A Torre de Babel: a criação e divisão de diferentes línguas e povos;
O reconhecimento da necessidade humana de ter novas revelações de Deus.
Ele vê estes sete fatos como o denominador comum entre todas as crenças nativas. As que possuem pelo menos seis destes fatos, estão mais próximas da verdade; as que só têm um dos fatos, estão longe demais, tendo deixado o conhecimento da verdade se perder ou se misturar com ideias diversas.
É importante notar que ele está se tratando de religiões nativas "originais", isto é, que sofreram pouco ou nenhum contato com outras religiões, principalmente as consideradas fabricadas (que não vieram como tradições de um povo inteiro, mas como ideias individuais, tais como islamismo, budismo etc.).
Richardson foi influenciado por Wilhelm Schmidt e Andrew Lang no que se refere ao conceito de monoteísmo em várias religiões mundiais. Neste livro, Richardson cita povos e tribos, alguns bem remotos, que apresentam esta noção monoteísta, muitas vezes semelhante ou correspondente à Bíblia. Aqui estão alguns deles:
Os cananeus: possuíam a ideia de um deus supremo chamado El Elyon que, em nosso idioma, significa "o Deus Altíssimo";
Os incas: possuíam um panteão de deuses tão grande quanto o de Atenas, sendo o mais adorado deles Inti, o deus-sol. No entanto, havia um certo ser chamado Viracocha, cuja singularidade é resumida pelo Dr. B.C. Brundage, baseado no relato do rei Pachacuti (quem "descobriu" Viracocha em sua própria cultura), como segue: “Ele é antigo, remoto, supremo e não-criado. Também não necessita da satisfação vulgar de uma consorte. Ele se manifesta como uma trindade quando assim o deseja,...caso contrário, apenas guerreiros e arcanjos celestiais rodeiam a sua solidão. Ele criou todos os povos pela sua palavra, assim como todos os huacas (espíritos). Ele é o Destino do homem, ordenando seus dias e o sustentando. É, na verdade, o princípio da vida, pois aquece os seres humanos através de seu filho criado, Punchao (o disco do sol, que de alguma forma se distinguia de Inti). É ele quem traz a paz e a ordem. É abençoado em seu próprio ser e tem piedade da miséria humana. Só ele julga e absolve os homens, capacitando-os a combater suas tendências perversas”.
Os santal: este povo, habitante de uma região ao norte de Calcutá, Índia, apresenta uma história um tanto semelhante à Bíblia. Segue o relato (resumido) feito no livro sobre ela:
"'Há muito, muito tempo atrás Thakur Jiu (que significa "Deus verdadeiro" na língua santal) criou o primeiro homem, e a primeira mulher, Haram e Ayo, e colocou-os bem longe, na região oeste da índia chamada Hihiri Pipiri. Ali, um ser chamado Lita tentou fazer cerveja de arroz e, depois, induziu-os a jogar parte da cerveja no solo como uma oferta ao demônio. Haram e Ayo se embriagaram com a cerveja e dormiram. Ao acordar souberam que estavam nus e tiveram vergonha. Mais tarde, Ayo teve sete filhos e sete filhas de Haram, os quais se casaram e formaram sete clãs. Os clãs migraram para uma região chamada Kroj Kaman, onde se tornaram corruptos. Thakur Jiu chamou a humanidade para voltar para Ele. Quando o homem se recusou, Thakur Jiu escondeu um 'casal santo' numa caverna no monte Harata, destruindo, a seguir, o restante da humanidade através de um dilúvio. Tempos depois, os descendentes do 'casal santo' se multiplicaram e migraram para uma planície de nome Sasan Beda ('campo de mostarda'). Thakur Jiu os dividiu ali em muitos povos diferentes. Um ramo da humanidade migrou primeiro para a 'terra de Jarpi' e depois continuou avançando para leste 'de floresta em floresta', até que altas montanhas bloquearam o seu caminho. Eles procuraram desesperadamente uma passagem através das montanhas, mas todas se mostraram intransponíveis, pelo menos para as mulheres e crianças. Naqueles dias os proto-santal, como descendentes do casal santo, ainda reconheciam Thakur Jiu como o Deus verdadeiro. Porém, ao enfrentar essa crise, eles perderam a fé no mesmo e deram o primeiro passo em direção ao espiritismo. 'Os espíritos dessas grandes montanhas bloquearam nosso caminho', decidiram. 'Vamos nos ligar a eles por meio de um juramento, a fim de nos permitirem passar'. Eles entraram, então, em aliança com os "Maran Buru” (espíritos das grandes montanhas), dizendo: 'Ó, Maran Buru, se abrirem o caminho para nós, iremos praticar o apaziguamento dos espíritos quando alcançarmos o outro lado'. Pouco depois, eles descobriram uma passagem na direção do sol nascente'. Chamaram essa passagem de Bain, que significa 'porta do dia'. Assim, os proto-santal atravessaram para as planícies denominadas, hoje, Paquistão e índia. Migrações subsequentes os impeliram mais para o leste, até às regiões fronteiriças entre a índia e a atual Bangladesh, onde se tornaram o povo santal dos dias de hoje. Escravos de seu juramento e não por amor aos Maran Buru, os santal começaram a praticar o apaziguamento dos espíritos, feitiçaria e até adoração do sol".
Os gedeo: habitantes do centro-sul da Etiópia, eles criam em um deus supremo chamado Magano e criam que estrangeiros viriam até eles mostrar como se tornarem íntimos de Magano e deixarem de adorar a Sheit'an, o ser maligno.
Os mbaka: os mbaka habitam na Rep. Centro-Africana e creem num deus supremo chamado Koro, o Criador, que enviou uma mensagem aos seus antepassados dizendo que Ele já mandara seu Filho para realizar uma coisa maravilhosa em favor de toda a humanidade. Mais tarde, porém, seus ancestrais afastaram-se da verdade sobre o Filho de Koro. Com o tempo, eles esqueceram o que Ele havia feito pela humanidade. Desde a época do esquecimento, gerações sucessivas desejaram descobrir a verdade sobre o Filho de Koro. Mas tudo o que puderam saber foi que mensageiros viriam para repetir esse conhecimento esquecido e que eles seriam provavelmente brancos. Além disso, eles possuíam um tipo de tribo sacerdotal entre eles e um rito de passagem que começava com um batismo, devendo o batizado, depois disso, agir como uma criança, com humildade e à procura da retidão.
Os chineses e coreanos: ambos os povos criam num deus supremo criador de tudo que não poderia ser representado por imagens, chamado em seus idiomas de Shangdi (o Senhor do Céu) e Hananim (o Grande), respectivamente. No caso dos chineses, por exemplo, a despeito das tentativas feitas pelos imperadores, confucionistas, budistas e taoistas de privá-lo cada vez mais do conhecimento do povo, Shang Ti continua a existir até hoje no pensamento popular.



Bibliografia

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Vida no Espírito Santo e a Igreja

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Viver cheio do Espirito Santo é viver em comunhão com a sua igreja, é impossível ser uma pessoa cheio do Espírito Santo e não está em comunhão com a igreja de Jesus. Quando o cristão é salvo e o Espírito Santo o convence que é um pecador logo ele é levado a congregar em uma igreja. Paulo valoriza de mais a igreja do Senhor; há nas escrituras 114 exemplos sobre Igreja e 62 destes exemplos estão nas epístolas paulinas. Paulo enxerga que a Igreja é visível como invisível; local como universal. A Igreja para Paulo é lugar de edificação (1 Cor 11:18; 14: 19-28). Ele então fala da igreja utilizando expressões de soberanias: Igreja de Deus (1 Cor 1:2;Gal. 1:13); das Igrejas de Deus (1 Cor. 11:16; 1 Tess. 2:14); e das de Cristo (Rom. 16: Gal 1:22). E às vezes remete as igrejas locais (1 Cor. 16:1; Gal. 1:2; 1 Co. 16:19; 2 Cor. 8:1; Gal. 1:22; Col. 4:16; 1 Tess 1:1; 2 :Tess. 1:1).

                Paulo também menciona igrejas menores, utilizando à expressão a “igreja na casa” (Rom. 16:5; 1 Cor 16:19; Col. 4:15; Fm 2). Não está bem claro o que esta expressão significa, pois só havia apenas igrejas em lares neste período, mas indica que eram grupos pequenos “okios”.

                Uma tese defendida por Paulo é da Igreja Universal, que é a Igreja existente em todo o Mundo. Neste sentido Paulo fala que Deus estabeleceu primeiro Apóstolos que não eram lideres locais (1 Cor. 12:28), neste pensamento Paulo foi perseguidor de toda a igreja (1 Cor. 15:9; Gal. 1:13). Assim entendemos que na mente de Paulo a Igreja é o corpo de Cristo (Cl. 1:24), do qual Cristo é a Cabeça (Ef. 1:22; 5:23; Cl 1:18). Assim a igreja cheia do Espírito Santo é uma igreja sujeita a Cristo (Ef. 5:24) e é por isto que a igreja é a expressão da multiforme sabedoria  de Deus nas regiões celestiais (Ef. 3:10). A Igreja é a depositaria do amor de Cristo, pois Cristo se entregou por ela (Ef. 5:25), e não apenas a adquiriu, mas a alimenta (Ef. 5:29).


                Assim poder-se-ia afirma que para ser cheio do Espírito Santo deve estar em comunhão profunda com a igreja, isto é ratificado pelas diversas formas que Paulo Ilustra a Igreja. A igreja é um edifício a onde o fundamento é Cristo (1 Cor. 3:11). Contudo, o fundamento doutrinário são os profetas e os apóstolos (Ef. 2:20). De modo mais específico é o santuário de Deus (1 Co. 3:16; Ef. 2:21), termo que combina com o adjetivo “santos”, comumente aplicado aos salvos. A igreja é uma família (Ef. 2:19; Gal. 6:10; I Tim. 3:15). Ela é a noiva de Cristo (2 Cor. 11:2; Ef. 5:25-32). Ela é o seu corpo (Cl. 1:18, 24; Rom. 12:4-5). Aqueles que são parte da Igreja é o povo de Deus (Rom 9:25-26), a nova raça humana (Cl. 3:10-11). Todos estes predicativos são também os predicativos do povo de Deus na face da terra, desta feita o cristão que este integrado na igreja é um cristão que tem uma Vida Cheia No Espírito Santo.