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terça-feira, 31 de julho de 2012

UMA ORAÇÃO DA NOITE


SALMO 4

Sl-4.1

O vers. 8 mostra que esta é uma oração da noite, provavelmente um desenvolvimento do verso 4 do Salmo anterior. Mais tarde foi adaptado à música para fins litúrgicos: Neginote, no título, significa "acompanhado por instrumentos de corda".

a) A invocação (1)

Na angústia me deste largueza... Isto implica que foi concedido livramento de um perigo imediato. A vereda estreita e restrita de Sl 2.2 alargou-se vindo a dar num lugar amplo. Todavia, nem tudo está bem. O perigo é menos óbvio e pessoal do que no Sl 3; tornou-se um perigo espiritual e comunal, cuja natureza é esboçada nos versos 2-6. Tem misericórdia de mim. Lit. "mostra-me favor".

>Sl-4.2

b) A representação aos homens (2-3)

Enquanto espera diante de Deus em oração, Davi faz, em meditação, um apelo aos guias do povo (filhos dos homens) que imagina estarem reunidos diante dele. Na perturbação que se seguiu ao fracasso inicial dos rebeldes em organizar prontamente a captura do rei fugitivo, por causa do erro que Absalão cometeu em não seguir o conselho de Aitofel, (ver 2Sm 17.1 e segs.), houve oportunidade para muitos admitirem segundos pensamentos a respeito de apoiar Absalão. Davi, metaforicamente, apela para eles, acusando-os de desonrar a dignidade real que ele recebeu de Deus e recordando-lhes que um antagonismo a Deus desta natureza é extremamente vão (cfr. Sl 2.1) e equivale a buscar a falsidade (2). Que eles considerem de novo que aquele que ama a Deus e a quem o Senhor escolhe é guardado por Ele (3a) e será ouvido por Ele em qualquer emergência (3b).

>Sl-4.4

c) A ordem aos homens (4-5)

Esta é mais direta e positiva do que a acusação precedente. Embora estes homens possam desprezar o rei e rebelar-se contra ele, que eles tomem consciência de que Deus está envolvido, que eles tremam perante o Senhor e não pequem, isto é, se guardem de pecar contra Ele: que cada um dê atenção à sua consciência e nas horas da noite, de recolhimento e reflexão, decidam calar-se, isto é, cessem de continuar a opor-se ao rei escolhido por Deus. Perturbai-vos. A Septuaginta traduz "Irai-vos". Cfr. Ef 4.26. Depois de uma pausa conveniente (Selah) durante a qual o vers. 3 pode ser apreciado de novo, Davi, num espírito em que manifesta a graça real, insta com os guias rebeldes para apresentar a Deus ofertas de sacrifícios como expressão do seu arrependimento e a jurar-Lhe a sua fidelidade. Sacrifícios de justiça. Cfr. Sl 51.17,19; Pv 15.8.

>Sl-4.6

d) A sua oração e louvor (6-8)

No verso 6, Davi reconsidera aquela estranha paralisia da piedade geral que o tinha espantado no Sl 3.2. Era uma evidência do descontentamento popular que tinha sido agravado pelas promessas de Absalão. Davi suplica ao Senhor o cumprimento sobre a nação daquela antiga bênção do sacerdócio arônico (Nm 6.26). Ele também confessa alegremente que, no seu próprio caso, um conflito desesperado tinha sido transformado num sentimento interior da graça divina que ultrapassava, de longe, as bênçãos materiais dos alimentos que lhe foram trazidos pelo velho Barzilai (cfr. 2Sm 17.27-29). Só (8). A palavra hebraica pode significar ou que só Deus lhe dá proteção ou que Deus o faz habitar em segurança quando está só. Ambos os sentidos são aplicáveis neste lugar. 

segunda-feira, 23 de julho de 2012

A ORAÇÃO MODIFICA AS COISAS


SALMO 3

Os Salmos 3-5 estão relacionados como sendo orações da manhã e da tarde. O título deste Salmo indica que o mesmo foi escrito quando Davi fugia de Absalão, o usurpador. A tristeza de coração do rei (1) nasceu da surpreendente magnitude da rebelião (cfr. 2Sm 15.13) e também do sentimento prevalecente entre o povo de que Davi não mais continuaria a receber auxílio de Deus (2), tão desesperada parecia a sua posição. A parte restante do Salmo distingue-se do sumário precedente da situação pela palavra selah, que sempre parece indicar uma mudança no modo, uma pausa no cântico ou uma alteração ao acompanhamento musical. Esta palavra foi inserida algum tempo depois do poema ser composto com o fim de o adaptar para o uso nos serviços do templo. Os versos 3-8, que exprimem a reação de Davi ao desenrolar esmagador dos acontecimentos, são uma manifestação sublime de inextinguível confiança em Deus.

Pode considerar-se o poema dividido em três partes.

a) Abatimento ao cair da noite (1-4)

Os acontecimentos sombrios do dia (1-2) são resumidos na oração da noite e deixados com o Senhor com a confiança de que Ele tem ouvido e prestado atenção. Tu, Senhor, és um escudo (3). Cfr. a promessa de Deus a Abraão (Gn 15.1). A confiança de Davi em Deus baseia-se na Sua fidelidade anterior, embora esta tenha estado associada com o Seu Santo monte (4), do qual agora Davi é obrigado a sair (cfr. Sl 2.6). Era este conhecimento do Senhor que lhe tornava possível dormir.

>Sl-3.5

b) Fé vigorosa de manhã (5-6)

O Senhor me sustentou (5). A frescura e o vigor do corpo e a serenidade da fé com que o escritor acordou na manhã seguinte deviam-se a uma certeza implícita da misericórdia e do poder preservador de Deus. Isto não só despojou as circunstâncias pressagiosas de qualquer poder de intimidar como também deu motivo à reivindicação de um triunfo real sobre as mesmas. Isto é, como na seção anterior, uma descrição dos sentimentos pessoais é seguida de uma oração ao Senhor. Ver o contraste com 2Sm 15.30.

>Sl-3.7

c) Um apelo a Deus (7-8)

Este apelo é motivado pelo perigo ainda existente mas é formulado como se a petição estivesse já concedida (cfr. Mc 11.24). Termina com uma afirmação da soberania divina no assunto da salvação que evoca uma bênção final e intercessória. Esta bênção deverá ser derramada contra o desapontamento sentido pelo povo nos vers. 1-2.

sábado, 14 de julho de 2012

UMA ORAÇÃO DE ANGÚSTIA

SALMO 6

A primeira parte do título (Sl 4) refere-se ao regente dos instrumentos de corda. A outra frase, sobre Seminite,  que significa "em tom de oitava" (cfr. #1Cr 15.21), refere-se provavelmente a uma marcação que era uma oitava inferior à usual. Moffatt traduz: "harpas reguladas para vozes baixas".

A ansiedade e a tristeza reduziram Davi à paralisia do desespero próprio em que o seu único remédio é uma confiança implícita na misericórdia de Deus. A ocasião pode ter coincidido com #2Sm 15.1-6. O poema divide-se em quatro partes.

a) O caráter angustioso da situação (1-3)

A repetição e o paralelismo do verso 1 cria um sentimento de tristeza e de tensão. Em primeiro lugar, há um conflito entre o ideal e o real. A acentuação sobre a ira da repreensão de Deus e o desprazer aflitivo do Seu castigo implicam numa tensão na mente de Davi que resultava da sua ignorância da causa da ira divina.

Em segundo lugar, o sofrimento de Davi não só é psicológico (porque sou fraco, "debilitado" -SBB) mas também físico (os meus ossos estão perturbados); isto é, a sua vida está franzida pela aridez e frialdade das circunstâncias em que se encontra e também por causa da aparente não intervenção de Deus. Isto dá motivo ao escárnio dos seus inimigos e enche a sua mente das sombras incertas da dúvida. Todavia, ele crê que Deus pode curar o seu corpo em desequilíbrio e que está atormentado pela doença.

Em terceiro lugar, a angústia da sua alma (3) é maior do que qualquer outra coisa. Ele sente-se apanhado entre a intensidade da sua tribulação e a incerteza das suas causas e da sua duração. Senhor, até quando? (3) Não se trata de uma pergunta petulante a respeito dos propósitos de Deus mas uma expressão pungente do seu coração em agonia. Cfr. #Jó 7.3-6; #Jó 16.9-16.

>Sl-6.4

b) A petição (4-5)

O fundamento dos seus rogos a Deus move-se agora da experiência pessoal e da necessidade humana para assuntos não temporais e para o caráter divino. Volta-te (4) pode ter o significado de "repete", isto é, livra-me como o tens feito em emergências anteriores (do que o verso 8 pode ser um reflexo). Por tua benignidade (4). A súplica por salvação baseia-se no caráter de Deus essencialmente compassivo. Cfr. #Êx 34.6.

>Sl-6.5

O verso 5 introduz uma razão para fortalecer os rogos pela salvação. Se Davi vivesse, poderia recordar Deus com ações de graças. Mas no sepulcro ("Seol", que significa o lugar dos mortos) ele não poderia fazê-lo. Cfr. #Sl 30.9; #Sl 88.10; #Is 38.18. O uso, aqui feito, de um argumento baseado no que se situa fora da existência terrena, é a contrapartida do argumento inicial (1) fundamentado na crença de que o julgamento espiritual se expressava em termos de prosperidade ou miséria pessoal. Ambas eram suposições erradas, mas não invalidam de forma alguma o apelo fundamental à misericórdia de Deus.

>Sl-6.6

c) As circunstâncias da aflição (6-7)

Há aqui um regresso, numa forma diferente, ao modo como se apresentam os primeiros versos. A lamentação diária é expressada na imagem de lágrimas intermináveis e do cansaço dos olhos encovados. De um lado, manifesta-se o seu próprio sofrimento (6) e do outro, pensamentos vexatórios acerca daqueles que o odeiam (7). Tudo isto lhe rouba o sono e fá-lo parecer prematuramente velho.

>Sl-6.8

d) A visão de fé (8-10)

Estes versos interpretam-se melhor como uma experiência antecipada daquilo que é mais desejado. Pode apresentar-se colorido pela recordação de ocasiões anteriores, mas, primariamente, trata-se de um sentimento intuitivo de um cumprimento que é ainda futuro. O verso 10 é uma expectação, daquele cumprimento, mais sóbria mas igualmente confiante; aqueles que se lhe opõem serão transtornados pela contradição óbvia do que esperam. Em lugar da perturbação da sua própria alma (3) eles é que se perturbarão. A intervenção de Deus, em resposta aos seus rogos (2-5), inverterá todos os seus valores e lançá-los-á em confusão de uma forma absoluta e inesperada (cfr. #Sl 35.4-8; #Sl 83.13-17; notem-se passagens do Novo Testamento como #2Ts 2.4-10; #2Pe 3.3-10).

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A CONFIANÇA DE UMA FÉ MADURA


SALMO 71

Este Salmo não tem título, ainda que a Septuaginta o atribua a "Davi", aos fi1hos de Jonadabe, e àqueles que primeiramente foram levados cativos, o que parece ligá-lo com os primeiros anos do exílio (cfr. Jr 35). Trata-se da oração de um homem idoso (9,19), e existe certa doçura e serenidade nela que é a característica de uma longa vida passada na dependência de Deus (cfr. 5,17). Porém, não há indicação sobre a autoria, excetuando a familiaridade do escritor com muitos outros salmos, especialmente os Sl 22 (cfr. vers. 5-6); Sl 31 (cfr. vers. 1-3): e Sl 35 (cfr. vers. 13-14,19).



Há um distinto paralelo entre os vers. 1-9 e os vers. 10-18. O restante do Salmo tem uma estrutura diferente, mas também se divide em dois grupos correspondentes à seção anterior.



a) Comunhão íntima com Deus (1-9)



A calma dignidade e a confiança desses versículos são inequívocas. O apelo solicitando a ajuda divina é introduzido numa frase cheia de gentileza (2) bem diferente dos gritos imperativos e impetuosos dos Sl 22; 35; 54; 69; 70 e está entrelaçado com a apreciação do fato que Deus sempre o tem salvaguardado (3). A característica principal desta seção é o espírito de adoração para com o Senhor: cada um dos primeiros oito versículos fala sobre Ele em tons de fé e gratidão.



Em ti, Senhor (1); tua justiça (2); tu és a minha rocha (3); meu Deus (4); tu és a minha esperança (5); tu és aquele (6); tu és o meu refúgio forte (7); teu louvor... tua glória (8). A passagem inteira prepara o caminho para a petição pessoal do vers. 9. Sou como um prodígio para muitos (7). Ou por causa de sua confiança em Deus por toda a vida, o que não o livrara do perigo e da opressão, ou por causa de suas marcantes experiências de livramento anterior do perigo.



Sl-71.10



b) Resolução, a despeito da angústia (10-18)



Estes versículos são, realmente, outra versão da oração anterior, ainda que tenham uma perspectiva mais lata e mais adiantada. O escritor volta-se para considerar seus inimigos (10), bem como aqueles que formam a próxima geração (18); é desejado o julgamento (13); a esperança é uma inspiração (14); o louvor é previsto (15-16); e o trabalho é antecipado (18). Contraste-se o ponto de vista para o passado, do vers. 6. Seus inimigos acreditam que o Senhor o abandonara e estão prestes a atacá-lo (11). Eis o motivo por que a oração dos vers. 2 e 3 é urgentemente repetida nas palavras: Ó Deus, não te alongues de mim (12). A confissão anterior de esperança é reiterada no vers. 14. A antecipação de louvor incessante, a respeito da glória de Deus (8) é agora reforçada por uma vida inteira de divina tutela (17). Finalmente, o lamentoso grito do vers. 9 é transformado no vers. 18; a possibilidade anterior das suas forças falharem se torna indefinidamente adiada, até que o trabalho de uma vida inteira seja realizado.



Os versículos restantes deste Salmo devem ser distinguidos dos anteriores: neles não há qualquer referência direta à juventude e à velhice, à perseguição, ou à necessidade de livramento imediato.



Sl-71.19



c) Esperança em Deus (19-21)



O sentimento destes versículos é comparável ao dos vers. 1-10. Não apenas existe uma bem real consciência dos atos anteriores da compaixão de Deus (19-20; notar o uso repetido do termo também), mas também há certo parentesco de pensamento. Por exemplo, foi a grandeza da santidade de Deus (19) que provocou a oração, inclina os teus ouvidos (2). Novamente, a noção de renascimento, desde os abismos da terra (20), isto é, livramento das portas da morte, é uma extensão do pensamento sobre o nascimento físico (6; cfr. Sl 139.15): ambas as coisas são consideradas como obras de Deus. Além disso, a grandeza do salmista, que ele ora seja aumentada (21) é, primariamente, a rica qualidade de seus anos maduros (cfr. vers. 9). Num sentido secundário, talvez também signifique o prestigio nacional; como texto alternativo, o vers. 20 emprega o pronome plural, ou seja, "nos tens feito ver", "nos darás" e "nos tirarás". Suas palavras, de novo me consolarás, podem ser consideradas como uma variação do vers. 9, ainda que talvez também tenha uma interpretação adicional, como se fosse uma oração nacional (respondida em #Is 40.1).



>Sl-71.22



d) Louvor e adoração (22-24)



Nesta última porção a ênfase recai sobre o futuro, como nos vers. 14-18 (o pronome "eu" é destacado tanto no vers. 14 como no vers. 22). Porém, em lugar de inimigos e conspirações, temos os instrumentos de louvor, o saltério e a harpa. Ele confia na resposta à oração expressa no vers. 12, e, portanto, exalta a verdade (isto é, a fidelidade) de seu Deus (22). Anteriormente ele tinha olhado esperançosamente a oportunidade de declarar a tua salvação todo o dia (15); mas agora ele segura-se na certeza de poder assim fazer, pois a redenção de sua alma é motivo bastante para falar todo o dia (24). Finalmente, o espírito de adoração é realçado pelo título ó Santo de Israel (22; no saltério somente encontrado também em #Sl 78.41 e #Sl 89.18), pois a santidade de Deus, acima de todas as coisas, é que serve de inspiração para este regozijante louvor (cfr. #Jo 15.9-11).


sexta-feira, 29 de junho de 2012

A Bíblia como ferramenta missionária


 No final de junho dei uma palestra em São Paulo por ocasião do VIII Fórum de Ciências Bíblicas, promovido pela Sociedade Bíblica do Brasil. O tema do fórum era “a relação entre missões e a Bíblia”. A minha contribuição foi em duas partes. Na primeira delas, considerei como podemos melhor correlacionar “missões” ou “missão” com a Bíblia. Era uma reflexão mais teológica e hermenêutica. Na segunda parte da palestra, considerei a Bíblia como ferramenta na expansão missionária do povo de Deus. Uma reflexão mais histórica. A partir de agora, falarei desta segunda parte da reflexão, uma vez que a primeira foi apresentada no mês passado.

Por esse motivo, consideremos a Bíblia em dois aspectos. Primeiro: a Bíblia como ferramenta nopreparo missionário. Segundo: a Bíblia como ferramenta na prática missionária.

A Bíblia como texto no preparo missionário (ou o estudo de missões)
 
No Brasil e fora dele, a Bíblia sempre foi um texto fundamental para o preparo tanto pastoral quanto missionário. No final dos anos 70, surgiu uma nova conscientização da responsabilidade missionária da igreja¹. Tipicamente havia forte apelo às passagens bíblicas classicamente “missionárias” como a “grande comissão nos Evangelhos”. Mas também havia tentativas de elaborar a temática missionária ao longo das Escrituras².

Com o desafio missionário, logo apareceram programas de preparo para o envio. A princípio, estes programas eram curtos, geralmente de poucas semanas, às vezes de um ou dois meses. Eventualmente os cursos se tornaram mais substanciais e incluíram matérias bíblicas³. Hoje, é comum estudar “teologia bíblica de missão” ou “fundamentos bíblicos para a obra missionária da igreja”. Nestas disciplinas, os grandes temas bíblicos de eleição, aliança, justiça e julgamento, esperança messiânica e salvação, criação e nova criação são interligados e tecidos em um pano de fundo bíblico essencialmente missionário.

Outro contexto muito importante onde a Bíblia é estudada com bastante proveito na perspectiva da missão da igreja é nos grandes encontros, congressos e conferências nacionais e internacionais. Recentemente, a carta aos Efésios foi estudada em pequenos grupos durante uma hora ou mais por milhares de líderes cristãos do mundo inteiro na Cidade do Cabo, no III Congresso Internacional de Evangelização – Lausanne III.  Há anos que todas as reuniões do Concílio Mundial de Igrejas iniciam os dias com uma reflexão da Bíblia sobre a missão da igreja e o mesmo pode ser dito sobre o Congresso Brasileiro de Missões, além de outros semelhantes.

A Bíblia como ferramenta de missões
 
A história do desenvolvimento e expansão do povo de Deus [missão] simplesmente não pode ser contada sem referência à tradução da Bíblia. São praticamente uma e a mesma história. Começa com o surgimento e a recuperação das Escrituras pelos judeus4.

Quando os judeus foram levados para o cativeiro no século VI, surgiram as primeiras traduções das Escrituras para o aramaico [o Targum], que se tornou a língua franca do exílio. Assim, estas traduções serviram tanto para manter a identidade dos judeus enquanto estavam longe das suas terras, quanto para divulgar os preceitos das Escrituras hebraicas entre os estrangeiros. 
 
Com o retorno de alguns judeus para as suas terras depois do exílio babilônico e a dispersão de um número muito maior por todo o mundo antigo eventualmente dominado pelos gregos, a tradução das Escrituras hebraicas para grego durante os séculos II e III [Septuaginta] foi instrumental na manutenção da identidade cultural e religiosa dos judeus. Esta nova tradução para e a sua exposição nas sinagogas se tornaram os principais instrumentos missionários dos judeus para os não judeus e a inclusão destes “tementes a Deus” nas sinagogas por todo o império romano antes, durante e depois do surgimento do cristianismo.

A compilação dos documentos da igreja primitiva levou cerca de 300 anos, em grego, submetida a várias coletâneas até se completar, somente no século IV D.C.. Também exerceu um papel fundamental na consolidação e expansão da igreja primitiva. As citações feitas por Paulo na sua carta aos Romanos, o testemunho no livro de Atos da leitura regular das Escrituras nas reuniões da igreja e a afirmação de Pedro da circulação das cartas de Paulo nas primeiras comunidades cristãs são evidências do papel pastoral e missionário das Escrituras.

Não demorou muito para a expansão espantosa do cristianismo por todo o império romano. Tal expansão se deve a muitos fatores, acima de tudo, ao esforço missionário e testemunho corajoso dos primeiros cristãos. Hoje, sabemos que aspectos físicos e linguísticos facilitaram a expansão, como a rede de estradas romanas construídas para todos os lados e grego como língua franca pelo menos na parte oriental do império. Mas, outro fator enorme era a existência e a subsequente tradução das Escrituras. Desde o início, a fé judaico-cristã foi uma fé do “livro”, e este livro acompanhou o seu crescimento. Logo se fez necessária uma tradução para o latim. Jerônimo se encarregou de consolidar esforços anteriores e produzir eventualmente a Vulgata entre 382 e 420 D.C.. Assim, favoreceu a expansão missionária em Roma e regiões ocidentais e setentrionais.

Nas regiões do antigo império Sírio, conquistadas séculos atrás pelos gregos, o Antigo Testamento foi traduzido para siríaco já no século II D.C., e o Novo Testamento nos séculos II e IV. Lá, um dos maiores movimentos missionários da história ascendeu: os nestorianos, que levou o evangelho até a Índia e China. Até hoje esta tradução, conhecida como a Peshitta, é usada por cristãos por todo o Oriente Médio.

Havia outras traduções da Bíblia nesta época e o seu impacto missionário também era grande. Ulfilas fez uma tradução para godo no século IV, instrumento na evangelização de bárbaros germânicos na Romênia. Traduções também para saídica, língua egípcia. No século V, São Mesrob fez uma tradução para o armênio e assim evangelizou boa parte da Armênia, de tal modo que se este se tornou o primeiro país oficialmente “cristão”. Outras traduções deste período incluíam a copta para o Egito, a nubiana antiga para o Sudão, a etiópia para a Etiópia, e a georgiana para o sul da Rússia.

Avançando mais na história, importantes traduções incluem para o inglês antigo, por São Beda, e para o alemão antigo no século VIII. As primeiras traduções para o chinês pelos nestorianos5 também ocorreram no século VIII, e o antigo eslavônico por Cirilo e Metódio no século IX para a região dos Bálcãs e a Morávia. Essa lista vai longe. No século XIII a Bíblia já estava disponível em 22 línguas.

No século XVII, o Evangelho de Mateus foi traduzido para o malaio, na Polinésia. Também João Elliot traduziu a Bíblia para algoniquim, língua dos índígenas que habitavam Massachusetts, nordeste dos Estados Unidos. No período moderno, é preciso destacar a importância missionária da tradução da Bíblia, ou partes dela, para o Tamil na Índia, pelo missionário dinamarquês Bartolomeu Ziegenbalg. Para o Bengali, Sânskrito. Para outras línguas, pelo inglês William Carey, conhecido popularmente como o “pai” das missões modernas. 

Na mesma época, o americano Adoniram Judson, que serviu na Birmânia, traduziu a Bíblia para a língua burmanesa e o inglês Henrique Martyn traduziu o Novo Testamento para o urdu, o persa e pérsico-judaico. E o dinamarquês, Paul Olaf Bodding, a traduziu para Santali, língua da Índia oriental. No século XIX, a Bíblia foi traduzida em cerca de 400 novas línguas e no século XX em mais de 800. Em cada um destes casos, é possível, até necessário, correlacionar a tradução da Bíblia com a expansão missionária do evangelho, e isto se repetiu centenas de vezes ao longo da história.

Conclusão
O mais surpreendente para nossa reflexão não é a correlação entre a Bíblia e a obra missionária. Também não é o papel prático da redação, compilação, tradução e distribuição da Bíblia no avanço dos propósitos de Deus no mundo desde a antiguidade. Mas, o mais surpreendente é que demoramos em reconhecer isto, promover fóruns sobre o assunto, estudar com bom proveito esta correlação a fim de nos perguntar: como, então, podemos melhor nos empenhar na missão de Deus em direção a sua nova criação, novos céus e nova terra, por meio deste instrumento e bússola tão precioso?

Notas
¹A ABUB promoveu uma primeira conferência missionária nacional em Curitiba em 1974.
2 Por exemplo, o meu livro, Missões na Bíblia. Princípios Gerais (São Paulo: Vida Nova, 1992) surgiu como uma compilação de palestras dadas em uma conferência missionária em 1983.
3 A primeira escola que ofereceu cursos de formação missionária de um a dois anos foi o Centro Evangélico de Missões (CEM), em 1983.
[Timóteo Carriker]

Crônicas de Nárnia em Hollywood: exageros e omissões


Muitos fãs das Crônicas de Nárnia me perguntam o que penso dos filmes baseados nos livros. De maneira geral, costumo dizer que a comunidade cristã, pelo menos nos Estados Unidos e Inglaterra, tem se manifestado e criado uma “vigilância” sobre o que aparece nas telas. Outro fator interessante é que o enteado de Lewis, Douglas Gresham, foi designado codiretor de todas as produções. Douglas tem um cuidado extremo com o patrimônio cultural de seu padrasto, tanto que ele praticamente está por dentro de tudo o que é publicado sobre Lewis, responsável por sua condução à conversão e ao chamado para a missão que ele exerce atualmente.
 
Dito isso, é claro que as estratégias mercadológicas e de marketing dos filmes não podem ser desprezadas, principalmente por se tratar de uma máquina de produção chamada “Walt Disney”, além de seus interesses nem sempre compatíveis com o cristianismo.
 
Dessa forma, logo no primeiro filme, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupas, há cenas de batalhas bem mais hollywoodianas do que aquelas descritas no livro. Mas, mesmo assim, alguns espectadores, principalmente meninos mais novos, acharam as batalhas “fraquinhas” demais.  São adolescentes acostumados com a violência de videogames e de outros filmes. Essa opinião foi suficiente para que o segundo filme, Príncipe Caspian, “caprichasse” ainda mais nesse quesito.
 
O segundo filme também mostra algo que seria inusitado para Lewis: o romance entre Susana e Cáspian, que só não foi para frente na terceira produção porque a mocinha simplesmente não participa dessa aventura. Isso não significa que ela não é honrosamente lembrada na imaginação de Lúcia, ao abrir o livro mágico em A Viagem do Peregrino da Alvorada. Aliás, nesse filme, há introdução de personagens e cenas inexistentes no livro.
 
Nesse aspecto, Príncipe Caspian é o mais fiel ao livro. Contudo, algumas modificações são até compreensíveis em uma adaptação para o cinema, que sempre envolve uma “tradução” de uma mídia para outra. Ela não seria perfeita se fosse um retrato rigoroso e fiel do suporte escrito, que despreza as características próprias da linguagem cinematográfica. Em alguns casos, a versão do cinema até amarrou “fios soltos” e fez pontes entre cenas um pouco desconexas nos livros. A legitimidade disso pode ser questionada, mas tendo a vê-la com bons olhos, desde que a essência do conteúdo e da mensagem seja mantida.
 
O que é difícil justificar são algumas omissões, mais visíveis no terceiro filme. Por exemplo, na cena em que Aslam faz com que Eustáquio volte para o formato humano, o livro conta que leão literalmente “esfola” as escamas do personagem com as suas garras, em um processo demorado e doloroso. No filme, ele se limita a arranhar o chão em um gesto simbólico, ou incompreensível para os desavisados, e a promover a descamação de Eustáquio com um rugido.
 
Ou seja, a pergunta teológica que surge é: Eustáquio tinha mesmo que passar por esse sofrimento? No filme, há apenas uma constatação da redenção de Eustáquio por Aslam em um passe de mágica. No livro, por sua vez, há um processo e uma causalidade que muito lembra outras cenas das Crônicas, como a de Edmundo nas garras da feiticeira, além de tantas outras passagens dos clássicos de Lewis, O Problema do Sofrimento e o menos conhecido, Anatomia de uma Dor. Deus fala conosco nos bons momentos, mas grita nos sofrimentos, que são o seu “megafone”. Ele é como um dentista, como um cirurgião que pode nos machucar em consequência de uma causa, ao longo do processo de cura. Tal dor não tem poder de redenção, que é prerrogativa de Aslam.
 
Há inúmeras outras cenas de omissão que deixaremos para as “cenas do próximo artigo”, pois vale a pena aprofundá-las. Fica aqui a pergunta, por enquanto: O que omissões como essa querem dizer? Que a cena do dragão com Aslam era complexa ou “teológica” demais para merecer o carimbo da Disney?

[Gabriele Greggersen]

sexta-feira, 25 de maio de 2012

AS CARTAS ÀS SETE IGREJAS Ap 2.1-3.2



É da opinião de alguns que estas cartas foram escritas antes do corpo principal do livro e foram enviadas separadamente às diferentes igrejas; mais tarde foram ampliadas e compiladas a fim de todas as igrejas tirarem proveito. A teoria não é impossível, porém é duvidosa, pois as cartas estão intimamente relacionadas com o início e o fim do livro; e, se eliminarem as passagens em apreço, o que restar constituirá mensagens bem abrutas. Cada carta se endereça ao "anjo" da igreja e começa com uma descrição de Cristo, tirada da visão introdutória, tendo os pormenores que se mencionam especial relevância à igreja sob consideração. A designação de Cristo na carta aos Laodicenses constitui uma exceção, sendo uma reminiscência da saudação com que o Apocalipse começa. Semelhantemente, cada carta conclui com uma promessa no tocante a galardões a serem distribuídos no segundo advento; de modo geral, estas promessas têm uma especial aptidão para cada igreja individualmente-e é-lhes dada uma encarnação visionária nos capítulos finais do livro.

a) A carta à igreja em Éfeso (Ap 2.1-7)

Éfeso era a maior cidade da Ásia e o centro da administração romana daquela província. Tomou o título de "Guardiã do Templo", originalmente em referência ao famoso templo de Ártemis, posteriormente, porém estende-se aos dois ou três templos devotados ao culto dos imperadores. Paulo fundou aqui a igreja que se tornou o centro para a evangelização do resto da província e aqui residia o apóstolo João. A igreja em Éfeso, consequentemente, deve ter-se tornado a principal do leste, com a possível exceção de Antioquia. Kiddle sugere que esta carta foi colocada em primeiro lugar, não tanto pela importância da igreja, como pela advertência que lhe foi entregue. (Por semelhante razão, a carta aos Laodicenses foi colocada por último).

A designação de Cristo em vers. 1, tanto é um encorajamento como é uma advertência. As sete estrelas estão na sua mão (isto é, Ele mantém a vida espiritual delas), e a sua presença é coextensiva a todas as igrejas. Mas o poder que sustêm é também competente para a remoção judicial; assim o título prepara o ouvinte para o vers. 5. Eu sei (2) declara uma verdade de semelhante importância dupla. A frase encabeça cada uma das sete cartas, ora proporcionando conforto (#Ap 2.9; #Ap 2.13, etc.), ora envergonhando (#Ap 3.1-15). Aqui ela precede uma recomendação. As obras dos efésios são trabalho e paciência (2); aquela se manifesta nos esforços para vencer os falsos mestres (2), esta na resignação paciente frente à oposição, quer dos falsos apóstolos, quer de outras fontes (3). Os maus são aqueles que se chamam profetas e não o são. Comparar predições de Paulo em #At 20.29-30; #1Tm 4.1-3. É possível que os principais ofensores sejam os nicolaítas mencionados no vers. 6.

A falta dos efésios é talvez a perversão de sua principal virtude; sua oposição aos falsos irmãos os conduzia a repreensão e dissensão dentro da igreja, levando-as assim a deixar o seu primeiro amor. Isto interpretaria o "amor" a que se faz referência como sendo o amor fraternal. Pode, contudo, se referir ao amor a Deus; compare #Tg 2.2-5, visto que uma manifestação deste amor é impossível sem a outra, podemos talvez incluir ambas em nosso texto (cfr. #Mc 12.30-31 com #1Jo 4.20). Brevemente a ti virei (5) significa que o Senhor "virá" numa visitação de juízo. Ver também #Ap 2.16. Um exemplo da sua "vinda" em bênção se acha em #Ap 3.20. Tais afirmações de maneira nenhuma entram em choque com a verdade de sua vinda final, fato este que os teólogos não têm sempre reconhecido quando falam da "vinda" de Cristo ao crente e dos seus "adventos" na história, como se o reconhecimento desses aparecimentos secundários de algum modo-invalidassem a verdade do aparecimento supremo.

Os nicolaítas eram julgados logo cedo como adeptos de Nicolau de Antioquia, um dos sete (#At 6.5). Deduzimos de #Ap 2.14-15 que eles mantinham o mesmo erro que os balaamitas, a saber: ensinar a comer coisas sacrificadas aos ídolos e a adulterar. Foram estas as principais matérias condenadas por decreto do concílio apostólico (#At 15.29). É notável que os nomes de Balaão e Nicolau são cognatos (Balaão-"Ele tem consumido o povo"; Nicolau-"Ele vence o povo"). Se este ensino foi tão energicamente repelido pelos efésios (vers. 2), concluímos que se espalhava muito. A injunção: Quem tem ouvidos... (7) repete-se em conexão com as promessas ao vencedor em todas as sete cartas. Está freqüentemente nos lábios do nosso Senhor através dos quatro Evangelhos (#Mt 13.9-43, etc.).

O Espírito é o Espírito Santo, se bem que o orador seja Cristo. Para semelhante fenômeno comparar #Rm 8.9-11 e #2Co 3.17. "Vencedor" retrata o cristão como fiel batalhador de Cristo, "membro da igreja militante, vitorioso, não obstante as circunstâncias" (Swete). Parece haver pouca justificativa em limitar o termo, como quereriam alguns, somente aos mártires, ainda que seja verdade que o vencedor só pode demonstrar sua vitória absoluta sendo fiel até a morte.

Comer da árvore da vida (7) é participar da plenitude da vida eterna; a árvore se encontra "no meio do paraíso de Deus", a Jerusalém celestial, que deverá manifestar-se na terra para o homem redimido (ver #Ap 21.10-22.2). As bênçãos da primeira criação, perdidas pelo homem, serão restauradas em escala ainda maior na "regeneração" (#Mt 19.28).

>Ap-2.8

b) A carta à igreja em Esmirna (Ap 2.8-11)

Esta cidade era uma das mais prósperas na Ásia Menor e tomou o nome de "Metrópole". Ali os judeus constituam uma colônia excepcionalmente numerosa e próspera; seu antagonismo à igreja cristã, aparece, não somente nesta carta, mas também na de Inácio aos esmirnenses. O título dado a Cristo (8) reaparece em #Ap 1.17. Esta igreja, prestes a ser severamente provada, necessitava relembrar que o seu Salvador era o Senhor da história e conquistador da morte (cfr. vers. 10).

Contrastar a condição dos cristãos em Esmirna com a riqueza material e a pobreza espiritual dos laodicenses (#Ap 3.17). A blasfêmia dos judeus (9) seria dirigida principalmente contra Jesus, mas eram capazes de blasfemar mesmo contra o Deus que eles confessavam. Os cristãos de Esmirna mais tarde relataram como os judeus se aliaram aos pagãos em reivindicarem a morte de Policarpo, Bispo de Esmirna, na base de sua oposição à religião estatal. Desse modo, em vez de constituírem uma assembléia de Deus, eles haviam-se tornado a sinagoga de Satanás (9; ver também #Ap 3.9). Uma vez que se nega que os judeus tivessem o direito de manter o seu nome nacional, torna-se evidente que os cristãos se consideram os legítimos herdeiros de Abraão, como em #Rm 2.28.

>Ap-2.10

As coisas que esses crentes brevemente têm de sofrer podem ter relação com a oposição dos judeus. Tal aflição terá a duração de dez dias (10), isto é; um período abreviado. Às vezes acredita-se ser idêntico à "grande tribulação" de #Ap 7.14, mas parece mais provável ser alusão a uma perseguição local. O diabo ("caluniador") será então o agente utilizado para provar os cristãos; tal provação por meio de perseguição se distingue da que se menciona em #Ap 3.10, onde lemos da hora da tentação que deverá vir sobre o mundo inteiro, pois desta última os cristãos serão preservados (cfr. #Ap 7.2-12.6). A coroa da vida (10) alude-se à grinalda conferida ao vencedor nos jogos, "a coroa que consiste de vida". Swete lembra que a coroa não é diadema, mas o emblema de festividade, nesse caso a grinalda é um apto símbolo de vida, pois esta última tem que ser compreendida à luz das descrições finais do livro, uma vida de sagrado privilégio, gozo e de galardões destinguidos (#1Co 9.25-27). A segunda morte (11). Em #Ap 21.8 define-se como "o lago que arde com fogo e enxofre". É uma frase rabínica; comparar o muito citado Targum de Jerusalém sobre #Dt 33.6, "Que viva Rúben nesta época e não morra a segunda morte de que morrem os injustos no mundo vindouro". Charles aptamente compara I Enoque 99.11, "Ai de vós que propagas o mal para o vosso próximo, pois perecereis em seol", conceito este que não implicava em aniquilamento, como torna claro I Enoque 109.3.

>Ap-2.12

c) A carta à igreja em Pérgamo (Ap 2.12-17)

Pérgamo era descrita por Aretas como "dada à idolatria mais do que toda a Ásia". Atrás da cidade situava-se uma colina, mais de 300 metros de altitude, coberta de templos pagãos. Entre eles o mais destacado de todos era o grande altar de Zeus, colocado sobre uma plataforma, esculpido na rocha, dominando a cidade. O culto ao imperador foi estabelecido ali primeiro que em Éfeso ou Esmirna, de sorte que posteriormente, Pérgamo se tornou o reconhecido centro do culto na Ásia. Daí dizia-se desta igreja, que habitava onde está o trono de Satanás (13). Este fator explicava a causa das dificuldades peculiares dos cristãos de Pérgamo.

O título no vers. 12 tem eco em #Ap 1.16 e antecipa #Ap 2.16. A minha fé (13) abrevia "fé em mim". A informação dada sobre o ensino de Balaão é tirada dos dois trechos, #Nm 25.1-2 e #Nm 31.16. O cristão que correspondia a Balaão provavelmente desprezava a carne, e deste modo descontava a importância da pureza física, justificando suas ações talvez, pela perversão do ensino de Paulo (repudiado por este em #Rm 3.8 e #Rm 6.1). "Permaneçamos no pecado, para que abunde a graça". O sentido de vers. 15 é ou, "Vós também tendes entre vós os nicolaítas, que vos ensinam assim como Balaão ensinava a Israel", ou "Vós também, como os efésios (6), tendes convosco os nicolaítas", sendo implícita a comparação com Balaão. Parece preferível aquele sentido. O vers. 16 apresenta a "vinda preliminar" de Cristo para o juízo se os pergamenses não se arrependerem. Ver 2.5 n. A promessa ao vencedor (17) alude à corrente expectação judaica de que desceria novamente do céu o maná quando se manifestasse o Messias. Ver II Baruque 29.8. Aqui o maná tipifica a vida espiritual, assim como "água da vida" e "fruto da árvore da vida" (#Ap 22.17-19). A promessa é especialmente apta para os que eram tentados a participar de festividades em que se comiam alimentos sacrificados aos ídolos. Abstendo-se dessas iguarias, os cristãos podiam antecipar um banquete mais farto no reino de Deus.

>Ap-2.17

A pedra branca (17) é de difícil interpretação devido aos diversos fins para os quais seixos foram empregados pelo mundo da antigüidade, cada um dos quais dava um excelente sentido simbólico. Assim uma pedra branca entregue por um júri significava ao réu sua absolvição, uma preta, culpabilidade. O seixo do vencedor outorgava-lhe ingresso a todas as festividades públicas. O tessern hospitalis estava em duas partes, inscritas com dois nomes cujos donos trocaram partes de maneira que cada pessoa tinha um convite aberto para a casa da outra. O Sumo Sacerdote levava doze pedras no seu peitoril inscritas com os nomes das doze tribos de Israel. Isto de modo nenhum exaure todas as possíveis interpretações. A nossa interpretação será em parte condicionada na nossa compreensão do novo nome escrito na pedra. Se o nome é de Cristo ou de Deus (cfr. #Ap 3.12 e #Ap 19.12), então pode haver uma alusão ao conceito do poder inerente ao nome de Deus; o cristão participa do poder de Deus e apropria para si de um modo que nenhum outro o pode fazer. Se o nome é um novo nome conferido ao crente, então a alusão é ao hábito de conferir novos nomes às pessoas que atingiram um novo estado, como Abrão e Jacó se tornaram Abraão e Israel; a pedra branca então significa o direito do vencedor de entrar no reino de Deus em um caráter todo próprio, moldado nele pela graça de Deus.

>Ap-2.18

d) A carta à igreja em Tiatira (Ap 2.18-29)

Tiatira era a menor das sete cidades. Não tinha nenhum templo devotado ao culto dos imperadores, de sorte que os cristãos não eram tão perturbados por aquele culto como as igrejas precedentes. O problema desta igreja centralizava-se nas situações comprometedoras criadas pelos interesses comerciais. Tiatira era uma cidade industrial, célebre pelos seus muitos grêmios comerciais. Era tão necessário unir-se a essas sociedades como é para o artesão hodierno, ser membro do seu determinado sindicato comercial; de outra forma, envolvia um ostracismo que tornaria quase impossível seu negócio. A dificuldade no caminho do cristão que se unia a tais grêmios era a necessidade de participar das periódicas refeições comuns quando se comia carne que fora dedicada à deidade pagã (talvez o padroeiro do seu grêmio). Pode-se entender que certos cristãos liberais não hesitariam em participar de tais festividades, alegando que "um ídolo não é nada" (#1Co 8.4). Logo, a desculpa podia achar-se pela licenciosidade em que muitas vezes estas refeições culminavam; e o próximo passo seria participar da devassidão geral. Isto era geralmente aconselhado pelos nicolaítas, e pode-se entender como isto encontrava fácil aceitação em Tiatira, onde a frase "negócio é negócio" seria bem aceita. O título provém de #Ap 1.14-15, Filho de Deus (18) sendo talvez sugerido por #Sl 2.7, uma vez que este salmo posteriormente é muito citado. Note-se que os olhos como chama de fogo antecipam o vers. 23, e os pés reluzentes, o vers. 27. Charles alega que as tuas obras (19) são definidas pelas qualidades que se seguem, "o teu amor, o teu serviço, a tua fé e a tua paciência" se esta interpretação é correta, é importante no esclarecimento do que o escritor quer significar com a expressão "julgado segundo as obras" (#Ap 20.12-14). A profetiza que propaga o ensino dos nicolaítas é simbolicamente chamada Jezabel, pois a rainha daquele nome tentou estabelecer um culto idólatra em lugar do culto a Jeová e ela mesma foi acusada de prostituição e feitiçaria (#2Rs 9.22). Note-se a inserção curiosa em alguns manuscritos de "tua mulher Jezabel" que implica ser o "anjo" da igreja, o seu administrador. No vers. 21 deduzimos que "Jezabel" anteriormente tinha sido advertida, sem resultado, ou por João ou por algum outro líder cristão. A "cama" em que Jezabel seria prostrada corresponde à grande tribulação (22), de sorte que é uma cama de sofrimento que está em mente aqui. O idiotismo é hebraico e ocorre em 1Mac 1.5 e Judite 8.3. É possível que aqueles que com ela adulteram (22) devem ser distintos dos seus filhos (23), no sentido que aqueles foram suficientemente influenciados por Jezabel, a ponto de comprometerem a sua lealdade cristã, enquanto estes abraçaram inteiramente a sua doutrina; aqueles deveriam ser castigados, estes exterminados. Por tais juízos as igrejas reconhecerão que Cristo sonda os rins e os corações (23). No uso hebraico, os rins são a sede das emoções, enquanto o coração é a sede do intelecto. As profundezas de Satanás (24) podem ser uma alusão satírica à pretensão gnóstica de conhecer exclusivamente as profundezas de Deus. Tal sabedoria não é divina, mas satanicamente inspirada. De outra forma, reflete o ensino nicolaíta que o cristão deve participar afoitamente dos excessos do paganismo e demonstrar que é imunizado de sua poluição. Os cristãos que assim procederam gabaram-se do seu conhecimento das profundezas de Satanás e, assim, desdenharam os seus irmãos mais escrupulosos. Para outra carga comparar #At 15.28-29; os dois preceitos principais do concílio apostólico foram abstenção de coisas sacrificadas aos ídolos e ao adultério. O vencedor aqui se define como o que guardar até ao fim as minhas obras (26). Ele deverá receber uma delegação da autoridade de Cristo sobre as nações (26) e participar do seu triunfo sobre os povos rebeldes (27); esta função faz parte daquela autoridade e antecipa a vinda de Cristo para o juízo (#Ap 19.11) e não o reino milenário, propriamente dito (#Ap 20.4-6). O verbo traduzido "regerá" no vers. 27 deve ser "destruirá". A estrela da manhã (28) parece ser o próprio Cristo (como em #Ap 22.16); maior do que o privilégio de reinar por Cristo será o irrestrito gozo de plena comunhão com Ele.

Ap-3.1

e) A carta à igreja de Sardes (Ap 3.1-6)

Sardes era uma cidade de glória delustrada. Outrora tinha sido a capital do antigo reino da Lídia, mas entrou em ocaso, depois da conquista persa, até que Tibério a reconstruiu depois de um terremoto. A cidade era célebre por duas coisas: a sua indústria de tintura e lã, e a libertinagem. A igreja em Sardes parece refletir a história da cidade. Houve tempos quando tinha um nome para progresso espiritual, mas agora era sem vida (1); a libertinagem caracterizava tanto os cristãos como os pagãos, de sorte que ali havia poucas pessoas que não tinham contaminado os seus vestidos (4), isto é, manchado a sua profissão cristã. Consequentemente, ela foi censurada com uma severidade igualada somente na carta aos laodicenses. O título reflete #Ap 1.4 e #Ap 1.16. Cristo se apresenta como o possuidor dos sete espíritos, possivelmente para representar o Seu perfeito conhecimento dos feitos da igreja (veja vers. 6), se bem que isto possa sugerir os dons espirituais que ele deseja conferir-lhe em contraste ao estado desanimado da igreja. Para as sete estrelas (1) ver #Ap 1.4; #Ap 1.20. Note-se que embora alguns cristãos permaneçam fiéis ao seu Senhor (4), a igreja como tal é caracterizada como morta; por estarem nesta condição todos são tidos como responsáveis. Com a primeira parte do vers. 2, comparar #Mt 24.42; com a segunda parte, comparar #Dn 5.27. Os tempos dos verbos no vers. 3 são descomunalmente variados: "Lembra-te (presente), pois, do que tens recebido (perfeito) e ouvido (aoristo); e guarda-o (presente), e arrepende-te (aoristo). E, se não vigiares (3) relembra #Mt 24.43-44 e se refere ao Advento final. Alguns estudiosos consideram que #Ap 16.15 tem sido deslocado e deve ser inserido logo antes desta afirmação. É fato que a situação de #Ap 16.15 no contexto atual é curiosa e fica melhor aqui, mas a deslocação do texto não passa de ser pura conjetura. O seu nome (5). Segundo certo uso da época o nome era sinônimo de "pessoa". É de supor que os cristãos contaminavam os seus vestidos acomodando-se aos costumes pagãos dos seus próximos. Aquele que mantinha o seu caráter e testemunho imaculados haveria de acompanhar a Cristo num vestuário de glória. Andarão comigo (5); Swete compara o convívio dos doze com Ele, nos dias do seu ministério terrestre. O vencedor recebe a dupla promessa deste privilégio. A literatura apocalíptica, contemporânea considerava o corpo da ressurreição como um vestuário de glória. A idéia é usada por Paulo (ver #2Co 5.4), e se revela neste livro também (ver #Ap 4.4). Porém #Ap 7.13-14 e #Ap 19.8 parecem salientar a pureza moral no uso deste símbolo, enquanto que, segundo Swete, o uso de branco às vezes denota festividade (#Ec 9.8) e vitória (2Mac 11.8). Parece que várias idéias se associam com este quadro; é bom aceitar e ao mesmo tempo reconhecer que o elemento ético predomina.

O riscar do livro da vida (5) recorda #Êx 32.32, onde o livro mencionado é um registro dos cidadãos do reino teocrático, aqui trata-se do registro de reino eterno, como em #Dn 12.1 e muitas passagens neotestamentárias (ver por exemplo, #Lc 10.20; #Fp 4.3; #Hb 12.23). Ver #Ap 20.12,15, onde isto se explica. Para a confissão do vencedor, comparar #Mt 10.32.

>Ap-3.7

f) A carta à igreja em Filadélfia (Ap 3.7-13)

Devido a freqüentes terremotos, a população de Filadélfia era pequena. A igreja parece ter sido numericamente fraca (vers. 8, "tendo pouca força"). Não há nenhuma alusão à perseguição das autoridades pagãs nem a heresias dentro da igreja; como em Esmirna, os judeus criavam um problema (9). Em contraste notável à carta que precede e à que se lhe segue, não há repreensão nem advertência do Senhor para esta igreja, mas apenas encômio e exortação. Os predicados santo e verdadeiro (7), aplicados aqui a Cristo, são usados em #Ap 6.10 em referência a Deus, assim dando uma das muitas indicações neste livro de que os atributos de Deus são compartilhados por Cristo. Jesus é verdadeiro no sentido de "fiel a sua palavra". Isto se diz em conexão com a sua posse da chave de Davi (7), uma frase que recorda #Ap 1.18, mas que, na realidade, cita #Is 22.22; reivindica para Cristo o direito de ingressar ou fechar ao homem a cidade de Davi, a nova Jerusalém, o reino messiânico. A relevância deste poder se manifesta no trecho entre parênteses, vers. 8-9.

>Ap-3.9

Os judeus de Filadélfia não eram mais dignos do nome do que os seus compatriotas em Esmirna e, como estes, são designados a sinagoga de Satanás (9). Este versículo declara que um dia, presumivelmente ao estabelecer-se o reino messiânico, eles serão obrigados a reconhecer que estes cristãos desprezados são na realidade os companheiros do Filho do Homem, os herdeiros do reino de Deus. É claro que os judeus ainda negavam esta última reivindicação. "Vós cristãos", diziam eles, "sois excluídos do reino; é para nós, os judeus". "Assim não", declara o Senhor; "Eu sou fiel à minha promessa. Só eu tenho a chave do reino. Tenho posto diante do meu povo, uma porta aberta que ninguém pode fechar. Eles entrarão no reino, e a homenagem que vós, judeus, esperais receber dos gentios (#Is 60.14), vós tereis que prestar a eles". Esta interpretação coaduna afirmações aparentemente sem nexo e concorda com a promessa do vers. 12. A fidelidade desta fraca comunidade cristã (8) receberá a sua devida compensação. A hora da tentação ("provação"), de que o Senhor guardará estes cristãos, não se refere ao prazo em que os juízos de Deus cairão sobre a terra, mas às próprias tribulações. Cfr. #Mc 14.35, onde a "hora" representa os horrores da cruz e as circunstâncias concomitantes. A tribulação mencionada aqui se aplica àqueles que habitam na terra (10), a frase técnica neste livro para os descrentes do mundo (cfr. #Ap 11.10). Para uma representação pictórica desta promessa ver #Ap 7.1-4.

>Ap-3.12

O vencedor será na nova era uma coluna no templo (12); #Ap 21.22 torna claro que não haverá outro templo na Jerusalém celeste senão Deus e o cordeiro. Esta promessa assegura nossa indissolúvel união com Deus para todo sempre. Escreverei sobre ele o nome do meu Deus (12). Caso esta frase se usar com a mesma metáfora a inscrição seria na coluna e não na testa do vencedor.

I Macabeus 19.26-48, relata como os feitos de Simão Macabeus foram inscritos sobre tábuas de bronze; estas foram fixadas "sobre colunas no monte de Sião", "dentro do recinto do santuário, num lugar conspícuo". Destarte foram conservados permanentemente os anais das façanhas de Simão. O motivo de orgulho do vencedor, contudo, não deverá ser nos seus feitos, mas antes no fato de que ele leva o nome do seu Deus, e da cidade de Deus, e o novo nome de Cristo; isto é; ele pertence a Deus e a Cristo revelado em glória (#Ap 19.12); é cidadão da nova Jerusalém, o eterno reino de Deus (#Ap 21.2).

>Ap-3.14

g) A carta à igreja em Laodicéia (Ap 3.14-22)

Laodicéia era situada à margem dum rio e ficava no entroncamento de três estradas que atravessavam a Ásia Menor. De modo natural, ela se tornou um grande centro comercial e administrativo. Três fatos que se conhecem acerca da cidade, lançam luz sobre esta carta: era um centro bancário de fabulosas reservas financeiras; as indústrias principais eram de tecidos e tapetes de lã; possuía também uma faculdade de medicina. A igreja não era acusada de imoralidade, nem de idolatria, nem tão pouco de franca apostasia (perseguição era desconhecida em Laodicéia). A terrível condenação que se pronunciava sobre ela era devido ao orgulho e auto-satisfação do elemento pagão dentro da igreja de sorte que sua comunhão com Cristo se enfraqueceu tragicamente. A severa descrição da sua condição espiritual (17) e a admoestação ao arrependimento (18), são apresentados em termos das três ocupações da cidade.

Na qualidade de o Amém (14) Jesus é a encarnação da verdade e fidelidade de Deus (ver #Is 65.16); o uso cristão do Amém acrescenta a idéia de que Ele é também cumpridor fiel dos propósitos declarados de Deus. Nesta designação achamos um contraste singular com a infidelidade dos laodicenses. Semelhantemente o título o princípio da criação de Deus (14) exalta a Cristo como Criador acima das pequeninas criaturas orgulhosas que se gabam da sua auto-suficiência. No vers. 16, se encontra uma censura sem igual no Novo Testamento, como expressão do aborrecimento de Cristo. A referência prende-se ao último juízo (cfr. #Lc 13.25-28). Os vers. 17 e 18 formulam uma só afirmação: Pois dizes: ... Aconselho-te que compres... A pretensão dos laodicenses não é apenas que eles de nada carecem, mas que a sua riqueza, tanto moral como material se deve completamente aos seus próprios esforços. Revela-se a sua verdadeira condição de pobreza, apesar de possuir dinheiro; de nudez, a despeito da sua abundância de vestidos; de cegueira, embora haja nela muitos médicos. Esta igreja, portanto é a única de todas as sete, a ser chamada de miserável. O seu recurso é "comprar" (cfr. #Is 55.1) de Cristo o ouro fino de um espírito regenerado, de pureza de coração, que possa levá-la à glória da ressurreição (#Ap 7.13-14) e da graça pela qual possa apropriar as realidades espirituais (cfr. #1Co 3 e #2Co 4). A condição repugnante dos laodicenses não extinguiu o amor de Cristo para com eles; a escorchante censura não é senão a expressão do seu profundo afeto que os possa levar ao arrependimento. O gracioso convite que se segue dirige-se, não à igreja coletivamente (que exigiria "se ouvirdes" a minha voz, mas a cada membro individualmente. Cristo deseja participar com eles mesmo nas atividades mais comuns da vida. Coincidente com o alto privilégio que se oferece a estes cristãos quase apóstatas é a promessa que transcende às que foram aplicadas às outras igrejas. Assim como o crente pede a Cristo que compartilhe consigo tudo quanto tem vida transitória, de igual modo, o Senhor o convida, se ele permanecer até o fim, a compartilhar o trono dos séculos vindouros dado pelo Pai. O cumprimento da promessa do reino milenar é descrito em #Ap 20.4-6, e do reino eterno da nova Jerusalém em #Ap 22.5.