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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

UMA ORAÇÃO MATINAL


SALMO 5

Este Salmo é companheiro do anterior. As circunstâncias são semelhantes, mas o vers. 3 faz dele uma oração matinal.

a) A invocação (1-3)

O caráter urgente e intenso do poema é revelado pelo primeiro verso. Os títulos Rei meu e Deus meu (2) implicam uma relação de intimidade entre Davi e o Senhor que o coloca em posição de solicitar o auxílio do poder e da justiça supremos. Pela manhã (3). O seu primeiro ato do dia consistirá em fazer ouvir a sua voz perante o Senhor e então vigiará na expectativa da resposta do Senhor.

>Sl-5.4

b) Como Deus age com os ímpios (4-8)

Entretanto, o salmista medita no caráter de Deus que é tão diferente do dos homens que se Lhe opõem, e é considerado no seu próprio coração de uma forma tão elevada. À vista de Deus, as atividades dos homens ímpios são fúteis; na Sua presença, os loucos ("arrogantes" -SBB) ou "jactanciosos" serão derrubados. Todas as obras más e as palavras falsas, que Deus odeia e abomina, serão destruídas.

O orador, depois, dá ênfase, em dois aspectos, àquilo que o distingue, a ele próprio, dos homens maus, falsos e cruéis. Num temor reverente (em Teu temor, 7) ele adora na casa de Deus (cfr. Sl 27.4). Pede também a Deus que o guie. Ele não necessita apenas de conhecer o que é reto. Necessita de ver removidos todos aqueles obstáculos que poderiam impedi-lo de andar no caminho de Deus. Aplana diante de mim o Teu caminho (8); isto é, "faz que o Teu caminho seja desobstruído" (Cfr. Is 40.4).

>Sl-5.9

c) O caminho de Deus com os justos (9-12)

Esta parte do Salmo ocupa-se com os mesmos elementos da seção anterior, isto é, os ímpios e os tementes a Deus, mas a orientação e a ênfase são completamente diferentes. Os vers. 4,6 consideram o ímpio como à vista de Deus; os vers. 9-10 descrevem-nos como eles são na vida. Os versos 7-8 constituem uma confissão humilde de confiança em Deus; os vers. 11-12 falam da jubilosa confiança na bênção de Deus. A oração tornou-se mais precisa e a fé tornou-se muito mais segura. A sua garganta é um sepulcro aberto (9), isto é, o que eles dizem acarretar-lhes-á eventualmente a destruição. Este princípio do pecado, que se faz acompanhar da sua recompensa e dos seus resultados inevitáveis, é freqüentemente expresso no Saltério. Cfr. Sl 28.4 e ver Gl 6.7-8.


terça-feira, 31 de julho de 2012

UMA ORAÇÃO DA NOITE


SALMO 4

Sl-4.1

O vers. 8 mostra que esta é uma oração da noite, provavelmente um desenvolvimento do verso 4 do Salmo anterior. Mais tarde foi adaptado à música para fins litúrgicos: Neginote, no título, significa "acompanhado por instrumentos de corda".

a) A invocação (1)

Na angústia me deste largueza... Isto implica que foi concedido livramento de um perigo imediato. A vereda estreita e restrita de Sl 2.2 alargou-se vindo a dar num lugar amplo. Todavia, nem tudo está bem. O perigo é menos óbvio e pessoal do que no Sl 3; tornou-se um perigo espiritual e comunal, cuja natureza é esboçada nos versos 2-6. Tem misericórdia de mim. Lit. "mostra-me favor".

>Sl-4.2

b) A representação aos homens (2-3)

Enquanto espera diante de Deus em oração, Davi faz, em meditação, um apelo aos guias do povo (filhos dos homens) que imagina estarem reunidos diante dele. Na perturbação que se seguiu ao fracasso inicial dos rebeldes em organizar prontamente a captura do rei fugitivo, por causa do erro que Absalão cometeu em não seguir o conselho de Aitofel, (ver 2Sm 17.1 e segs.), houve oportunidade para muitos admitirem segundos pensamentos a respeito de apoiar Absalão. Davi, metaforicamente, apela para eles, acusando-os de desonrar a dignidade real que ele recebeu de Deus e recordando-lhes que um antagonismo a Deus desta natureza é extremamente vão (cfr. Sl 2.1) e equivale a buscar a falsidade (2). Que eles considerem de novo que aquele que ama a Deus e a quem o Senhor escolhe é guardado por Ele (3a) e será ouvido por Ele em qualquer emergência (3b).

>Sl-4.4

c) A ordem aos homens (4-5)

Esta é mais direta e positiva do que a acusação precedente. Embora estes homens possam desprezar o rei e rebelar-se contra ele, que eles tomem consciência de que Deus está envolvido, que eles tremam perante o Senhor e não pequem, isto é, se guardem de pecar contra Ele: que cada um dê atenção à sua consciência e nas horas da noite, de recolhimento e reflexão, decidam calar-se, isto é, cessem de continuar a opor-se ao rei escolhido por Deus. Perturbai-vos. A Septuaginta traduz "Irai-vos". Cfr. Ef 4.26. Depois de uma pausa conveniente (Selah) durante a qual o vers. 3 pode ser apreciado de novo, Davi, num espírito em que manifesta a graça real, insta com os guias rebeldes para apresentar a Deus ofertas de sacrifícios como expressão do seu arrependimento e a jurar-Lhe a sua fidelidade. Sacrifícios de justiça. Cfr. Sl 51.17,19; Pv 15.8.

>Sl-4.6

d) A sua oração e louvor (6-8)

No verso 6, Davi reconsidera aquela estranha paralisia da piedade geral que o tinha espantado no Sl 3.2. Era uma evidência do descontentamento popular que tinha sido agravado pelas promessas de Absalão. Davi suplica ao Senhor o cumprimento sobre a nação daquela antiga bênção do sacerdócio arônico (Nm 6.26). Ele também confessa alegremente que, no seu próprio caso, um conflito desesperado tinha sido transformado num sentimento interior da graça divina que ultrapassava, de longe, as bênçãos materiais dos alimentos que lhe foram trazidos pelo velho Barzilai (cfr. 2Sm 17.27-29). Só (8). A palavra hebraica pode significar ou que só Deus lhe dá proteção ou que Deus o faz habitar em segurança quando está só. Ambos os sentidos são aplicáveis neste lugar. 

segunda-feira, 23 de julho de 2012

A ORAÇÃO MODIFICA AS COISAS


SALMO 3

Os Salmos 3-5 estão relacionados como sendo orações da manhã e da tarde. O título deste Salmo indica que o mesmo foi escrito quando Davi fugia de Absalão, o usurpador. A tristeza de coração do rei (1) nasceu da surpreendente magnitude da rebelião (cfr. 2Sm 15.13) e também do sentimento prevalecente entre o povo de que Davi não mais continuaria a receber auxílio de Deus (2), tão desesperada parecia a sua posição. A parte restante do Salmo distingue-se do sumário precedente da situação pela palavra selah, que sempre parece indicar uma mudança no modo, uma pausa no cântico ou uma alteração ao acompanhamento musical. Esta palavra foi inserida algum tempo depois do poema ser composto com o fim de o adaptar para o uso nos serviços do templo. Os versos 3-8, que exprimem a reação de Davi ao desenrolar esmagador dos acontecimentos, são uma manifestação sublime de inextinguível confiança em Deus.

Pode considerar-se o poema dividido em três partes.

a) Abatimento ao cair da noite (1-4)

Os acontecimentos sombrios do dia (1-2) são resumidos na oração da noite e deixados com o Senhor com a confiança de que Ele tem ouvido e prestado atenção. Tu, Senhor, és um escudo (3). Cfr. a promessa de Deus a Abraão (Gn 15.1). A confiança de Davi em Deus baseia-se na Sua fidelidade anterior, embora esta tenha estado associada com o Seu Santo monte (4), do qual agora Davi é obrigado a sair (cfr. Sl 2.6). Era este conhecimento do Senhor que lhe tornava possível dormir.

>Sl-3.5

b) Fé vigorosa de manhã (5-6)

O Senhor me sustentou (5). A frescura e o vigor do corpo e a serenidade da fé com que o escritor acordou na manhã seguinte deviam-se a uma certeza implícita da misericórdia e do poder preservador de Deus. Isto não só despojou as circunstâncias pressagiosas de qualquer poder de intimidar como também deu motivo à reivindicação de um triunfo real sobre as mesmas. Isto é, como na seção anterior, uma descrição dos sentimentos pessoais é seguida de uma oração ao Senhor. Ver o contraste com 2Sm 15.30.

>Sl-3.7

c) Um apelo a Deus (7-8)

Este apelo é motivado pelo perigo ainda existente mas é formulado como se a petição estivesse já concedida (cfr. Mc 11.24). Termina com uma afirmação da soberania divina no assunto da salvação que evoca uma bênção final e intercessória. Esta bênção deverá ser derramada contra o desapontamento sentido pelo povo nos vers. 1-2.

sábado, 14 de julho de 2012

UMA ORAÇÃO DE ANGÚSTIA

SALMO 6

A primeira parte do título (Sl 4) refere-se ao regente dos instrumentos de corda. A outra frase, sobre Seminite,  que significa "em tom de oitava" (cfr. #1Cr 15.21), refere-se provavelmente a uma marcação que era uma oitava inferior à usual. Moffatt traduz: "harpas reguladas para vozes baixas".

A ansiedade e a tristeza reduziram Davi à paralisia do desespero próprio em que o seu único remédio é uma confiança implícita na misericórdia de Deus. A ocasião pode ter coincidido com #2Sm 15.1-6. O poema divide-se em quatro partes.

a) O caráter angustioso da situação (1-3)

A repetição e o paralelismo do verso 1 cria um sentimento de tristeza e de tensão. Em primeiro lugar, há um conflito entre o ideal e o real. A acentuação sobre a ira da repreensão de Deus e o desprazer aflitivo do Seu castigo implicam numa tensão na mente de Davi que resultava da sua ignorância da causa da ira divina.

Em segundo lugar, o sofrimento de Davi não só é psicológico (porque sou fraco, "debilitado" -SBB) mas também físico (os meus ossos estão perturbados); isto é, a sua vida está franzida pela aridez e frialdade das circunstâncias em que se encontra e também por causa da aparente não intervenção de Deus. Isto dá motivo ao escárnio dos seus inimigos e enche a sua mente das sombras incertas da dúvida. Todavia, ele crê que Deus pode curar o seu corpo em desequilíbrio e que está atormentado pela doença.

Em terceiro lugar, a angústia da sua alma (3) é maior do que qualquer outra coisa. Ele sente-se apanhado entre a intensidade da sua tribulação e a incerteza das suas causas e da sua duração. Senhor, até quando? (3) Não se trata de uma pergunta petulante a respeito dos propósitos de Deus mas uma expressão pungente do seu coração em agonia. Cfr. #Jó 7.3-6; #Jó 16.9-16.

>Sl-6.4

b) A petição (4-5)

O fundamento dos seus rogos a Deus move-se agora da experiência pessoal e da necessidade humana para assuntos não temporais e para o caráter divino. Volta-te (4) pode ter o significado de "repete", isto é, livra-me como o tens feito em emergências anteriores (do que o verso 8 pode ser um reflexo). Por tua benignidade (4). A súplica por salvação baseia-se no caráter de Deus essencialmente compassivo. Cfr. #Êx 34.6.

>Sl-6.5

O verso 5 introduz uma razão para fortalecer os rogos pela salvação. Se Davi vivesse, poderia recordar Deus com ações de graças. Mas no sepulcro ("Seol", que significa o lugar dos mortos) ele não poderia fazê-lo. Cfr. #Sl 30.9; #Sl 88.10; #Is 38.18. O uso, aqui feito, de um argumento baseado no que se situa fora da existência terrena, é a contrapartida do argumento inicial (1) fundamentado na crença de que o julgamento espiritual se expressava em termos de prosperidade ou miséria pessoal. Ambas eram suposições erradas, mas não invalidam de forma alguma o apelo fundamental à misericórdia de Deus.

>Sl-6.6

c) As circunstâncias da aflição (6-7)

Há aqui um regresso, numa forma diferente, ao modo como se apresentam os primeiros versos. A lamentação diária é expressada na imagem de lágrimas intermináveis e do cansaço dos olhos encovados. De um lado, manifesta-se o seu próprio sofrimento (6) e do outro, pensamentos vexatórios acerca daqueles que o odeiam (7). Tudo isto lhe rouba o sono e fá-lo parecer prematuramente velho.

>Sl-6.8

d) A visão de fé (8-10)

Estes versos interpretam-se melhor como uma experiência antecipada daquilo que é mais desejado. Pode apresentar-se colorido pela recordação de ocasiões anteriores, mas, primariamente, trata-se de um sentimento intuitivo de um cumprimento que é ainda futuro. O verso 10 é uma expectação, daquele cumprimento, mais sóbria mas igualmente confiante; aqueles que se lhe opõem serão transtornados pela contradição óbvia do que esperam. Em lugar da perturbação da sua própria alma (3) eles é que se perturbarão. A intervenção de Deus, em resposta aos seus rogos (2-5), inverterá todos os seus valores e lançá-los-á em confusão de uma forma absoluta e inesperada (cfr. #Sl 35.4-8; #Sl 83.13-17; notem-se passagens do Novo Testamento como #2Ts 2.4-10; #2Pe 3.3-10).

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A CONFIANÇA DE UMA FÉ MADURA


SALMO 71

Este Salmo não tem título, ainda que a Septuaginta o atribua a "Davi", aos fi1hos de Jonadabe, e àqueles que primeiramente foram levados cativos, o que parece ligá-lo com os primeiros anos do exílio (cfr. Jr 35). Trata-se da oração de um homem idoso (9,19), e existe certa doçura e serenidade nela que é a característica de uma longa vida passada na dependência de Deus (cfr. 5,17). Porém, não há indicação sobre a autoria, excetuando a familiaridade do escritor com muitos outros salmos, especialmente os Sl 22 (cfr. vers. 5-6); Sl 31 (cfr. vers. 1-3): e Sl 35 (cfr. vers. 13-14,19).



Há um distinto paralelo entre os vers. 1-9 e os vers. 10-18. O restante do Salmo tem uma estrutura diferente, mas também se divide em dois grupos correspondentes à seção anterior.



a) Comunhão íntima com Deus (1-9)



A calma dignidade e a confiança desses versículos são inequívocas. O apelo solicitando a ajuda divina é introduzido numa frase cheia de gentileza (2) bem diferente dos gritos imperativos e impetuosos dos Sl 22; 35; 54; 69; 70 e está entrelaçado com a apreciação do fato que Deus sempre o tem salvaguardado (3). A característica principal desta seção é o espírito de adoração para com o Senhor: cada um dos primeiros oito versículos fala sobre Ele em tons de fé e gratidão.



Em ti, Senhor (1); tua justiça (2); tu és a minha rocha (3); meu Deus (4); tu és a minha esperança (5); tu és aquele (6); tu és o meu refúgio forte (7); teu louvor... tua glória (8). A passagem inteira prepara o caminho para a petição pessoal do vers. 9. Sou como um prodígio para muitos (7). Ou por causa de sua confiança em Deus por toda a vida, o que não o livrara do perigo e da opressão, ou por causa de suas marcantes experiências de livramento anterior do perigo.



Sl-71.10



b) Resolução, a despeito da angústia (10-18)



Estes versículos são, realmente, outra versão da oração anterior, ainda que tenham uma perspectiva mais lata e mais adiantada. O escritor volta-se para considerar seus inimigos (10), bem como aqueles que formam a próxima geração (18); é desejado o julgamento (13); a esperança é uma inspiração (14); o louvor é previsto (15-16); e o trabalho é antecipado (18). Contraste-se o ponto de vista para o passado, do vers. 6. Seus inimigos acreditam que o Senhor o abandonara e estão prestes a atacá-lo (11). Eis o motivo por que a oração dos vers. 2 e 3 é urgentemente repetida nas palavras: Ó Deus, não te alongues de mim (12). A confissão anterior de esperança é reiterada no vers. 14. A antecipação de louvor incessante, a respeito da glória de Deus (8) é agora reforçada por uma vida inteira de divina tutela (17). Finalmente, o lamentoso grito do vers. 9 é transformado no vers. 18; a possibilidade anterior das suas forças falharem se torna indefinidamente adiada, até que o trabalho de uma vida inteira seja realizado.



Os versículos restantes deste Salmo devem ser distinguidos dos anteriores: neles não há qualquer referência direta à juventude e à velhice, à perseguição, ou à necessidade de livramento imediato.



Sl-71.19



c) Esperança em Deus (19-21)



O sentimento destes versículos é comparável ao dos vers. 1-10. Não apenas existe uma bem real consciência dos atos anteriores da compaixão de Deus (19-20; notar o uso repetido do termo também), mas também há certo parentesco de pensamento. Por exemplo, foi a grandeza da santidade de Deus (19) que provocou a oração, inclina os teus ouvidos (2). Novamente, a noção de renascimento, desde os abismos da terra (20), isto é, livramento das portas da morte, é uma extensão do pensamento sobre o nascimento físico (6; cfr. Sl 139.15): ambas as coisas são consideradas como obras de Deus. Além disso, a grandeza do salmista, que ele ora seja aumentada (21) é, primariamente, a rica qualidade de seus anos maduros (cfr. vers. 9). Num sentido secundário, talvez também signifique o prestigio nacional; como texto alternativo, o vers. 20 emprega o pronome plural, ou seja, "nos tens feito ver", "nos darás" e "nos tirarás". Suas palavras, de novo me consolarás, podem ser consideradas como uma variação do vers. 9, ainda que talvez também tenha uma interpretação adicional, como se fosse uma oração nacional (respondida em #Is 40.1).



>Sl-71.22



d) Louvor e adoração (22-24)



Nesta última porção a ênfase recai sobre o futuro, como nos vers. 14-18 (o pronome "eu" é destacado tanto no vers. 14 como no vers. 22). Porém, em lugar de inimigos e conspirações, temos os instrumentos de louvor, o saltério e a harpa. Ele confia na resposta à oração expressa no vers. 12, e, portanto, exalta a verdade (isto é, a fidelidade) de seu Deus (22). Anteriormente ele tinha olhado esperançosamente a oportunidade de declarar a tua salvação todo o dia (15); mas agora ele segura-se na certeza de poder assim fazer, pois a redenção de sua alma é motivo bastante para falar todo o dia (24). Finalmente, o espírito de adoração é realçado pelo título ó Santo de Israel (22; no saltério somente encontrado também em #Sl 78.41 e #Sl 89.18), pois a santidade de Deus, acima de todas as coisas, é que serve de inspiração para este regozijante louvor (cfr. #Jo 15.9-11).


sexta-feira, 29 de junho de 2012

A Bíblia como ferramenta missionária


 No final de junho dei uma palestra em São Paulo por ocasião do VIII Fórum de Ciências Bíblicas, promovido pela Sociedade Bíblica do Brasil. O tema do fórum era “a relação entre missões e a Bíblia”. A minha contribuição foi em duas partes. Na primeira delas, considerei como podemos melhor correlacionar “missões” ou “missão” com a Bíblia. Era uma reflexão mais teológica e hermenêutica. Na segunda parte da palestra, considerei a Bíblia como ferramenta na expansão missionária do povo de Deus. Uma reflexão mais histórica. A partir de agora, falarei desta segunda parte da reflexão, uma vez que a primeira foi apresentada no mês passado.

Por esse motivo, consideremos a Bíblia em dois aspectos. Primeiro: a Bíblia como ferramenta nopreparo missionário. Segundo: a Bíblia como ferramenta na prática missionária.

A Bíblia como texto no preparo missionário (ou o estudo de missões)
 
No Brasil e fora dele, a Bíblia sempre foi um texto fundamental para o preparo tanto pastoral quanto missionário. No final dos anos 70, surgiu uma nova conscientização da responsabilidade missionária da igreja¹. Tipicamente havia forte apelo às passagens bíblicas classicamente “missionárias” como a “grande comissão nos Evangelhos”. Mas também havia tentativas de elaborar a temática missionária ao longo das Escrituras².

Com o desafio missionário, logo apareceram programas de preparo para o envio. A princípio, estes programas eram curtos, geralmente de poucas semanas, às vezes de um ou dois meses. Eventualmente os cursos se tornaram mais substanciais e incluíram matérias bíblicas³. Hoje, é comum estudar “teologia bíblica de missão” ou “fundamentos bíblicos para a obra missionária da igreja”. Nestas disciplinas, os grandes temas bíblicos de eleição, aliança, justiça e julgamento, esperança messiânica e salvação, criação e nova criação são interligados e tecidos em um pano de fundo bíblico essencialmente missionário.

Outro contexto muito importante onde a Bíblia é estudada com bastante proveito na perspectiva da missão da igreja é nos grandes encontros, congressos e conferências nacionais e internacionais. Recentemente, a carta aos Efésios foi estudada em pequenos grupos durante uma hora ou mais por milhares de líderes cristãos do mundo inteiro na Cidade do Cabo, no III Congresso Internacional de Evangelização – Lausanne III.  Há anos que todas as reuniões do Concílio Mundial de Igrejas iniciam os dias com uma reflexão da Bíblia sobre a missão da igreja e o mesmo pode ser dito sobre o Congresso Brasileiro de Missões, além de outros semelhantes.

A Bíblia como ferramenta de missões
 
A história do desenvolvimento e expansão do povo de Deus [missão] simplesmente não pode ser contada sem referência à tradução da Bíblia. São praticamente uma e a mesma história. Começa com o surgimento e a recuperação das Escrituras pelos judeus4.

Quando os judeus foram levados para o cativeiro no século VI, surgiram as primeiras traduções das Escrituras para o aramaico [o Targum], que se tornou a língua franca do exílio. Assim, estas traduções serviram tanto para manter a identidade dos judeus enquanto estavam longe das suas terras, quanto para divulgar os preceitos das Escrituras hebraicas entre os estrangeiros. 
 
Com o retorno de alguns judeus para as suas terras depois do exílio babilônico e a dispersão de um número muito maior por todo o mundo antigo eventualmente dominado pelos gregos, a tradução das Escrituras hebraicas para grego durante os séculos II e III [Septuaginta] foi instrumental na manutenção da identidade cultural e religiosa dos judeus. Esta nova tradução para e a sua exposição nas sinagogas se tornaram os principais instrumentos missionários dos judeus para os não judeus e a inclusão destes “tementes a Deus” nas sinagogas por todo o império romano antes, durante e depois do surgimento do cristianismo.

A compilação dos documentos da igreja primitiva levou cerca de 300 anos, em grego, submetida a várias coletâneas até se completar, somente no século IV D.C.. Também exerceu um papel fundamental na consolidação e expansão da igreja primitiva. As citações feitas por Paulo na sua carta aos Romanos, o testemunho no livro de Atos da leitura regular das Escrituras nas reuniões da igreja e a afirmação de Pedro da circulação das cartas de Paulo nas primeiras comunidades cristãs são evidências do papel pastoral e missionário das Escrituras.

Não demorou muito para a expansão espantosa do cristianismo por todo o império romano. Tal expansão se deve a muitos fatores, acima de tudo, ao esforço missionário e testemunho corajoso dos primeiros cristãos. Hoje, sabemos que aspectos físicos e linguísticos facilitaram a expansão, como a rede de estradas romanas construídas para todos os lados e grego como língua franca pelo menos na parte oriental do império. Mas, outro fator enorme era a existência e a subsequente tradução das Escrituras. Desde o início, a fé judaico-cristã foi uma fé do “livro”, e este livro acompanhou o seu crescimento. Logo se fez necessária uma tradução para o latim. Jerônimo se encarregou de consolidar esforços anteriores e produzir eventualmente a Vulgata entre 382 e 420 D.C.. Assim, favoreceu a expansão missionária em Roma e regiões ocidentais e setentrionais.

Nas regiões do antigo império Sírio, conquistadas séculos atrás pelos gregos, o Antigo Testamento foi traduzido para siríaco já no século II D.C., e o Novo Testamento nos séculos II e IV. Lá, um dos maiores movimentos missionários da história ascendeu: os nestorianos, que levou o evangelho até a Índia e China. Até hoje esta tradução, conhecida como a Peshitta, é usada por cristãos por todo o Oriente Médio.

Havia outras traduções da Bíblia nesta época e o seu impacto missionário também era grande. Ulfilas fez uma tradução para godo no século IV, instrumento na evangelização de bárbaros germânicos na Romênia. Traduções também para saídica, língua egípcia. No século V, São Mesrob fez uma tradução para o armênio e assim evangelizou boa parte da Armênia, de tal modo que se este se tornou o primeiro país oficialmente “cristão”. Outras traduções deste período incluíam a copta para o Egito, a nubiana antiga para o Sudão, a etiópia para a Etiópia, e a georgiana para o sul da Rússia.

Avançando mais na história, importantes traduções incluem para o inglês antigo, por São Beda, e para o alemão antigo no século VIII. As primeiras traduções para o chinês pelos nestorianos5 também ocorreram no século VIII, e o antigo eslavônico por Cirilo e Metódio no século IX para a região dos Bálcãs e a Morávia. Essa lista vai longe. No século XIII a Bíblia já estava disponível em 22 línguas.

No século XVII, o Evangelho de Mateus foi traduzido para o malaio, na Polinésia. Também João Elliot traduziu a Bíblia para algoniquim, língua dos índígenas que habitavam Massachusetts, nordeste dos Estados Unidos. No período moderno, é preciso destacar a importância missionária da tradução da Bíblia, ou partes dela, para o Tamil na Índia, pelo missionário dinamarquês Bartolomeu Ziegenbalg. Para o Bengali, Sânskrito. Para outras línguas, pelo inglês William Carey, conhecido popularmente como o “pai” das missões modernas. 

Na mesma época, o americano Adoniram Judson, que serviu na Birmânia, traduziu a Bíblia para a língua burmanesa e o inglês Henrique Martyn traduziu o Novo Testamento para o urdu, o persa e pérsico-judaico. E o dinamarquês, Paul Olaf Bodding, a traduziu para Santali, língua da Índia oriental. No século XIX, a Bíblia foi traduzida em cerca de 400 novas línguas e no século XX em mais de 800. Em cada um destes casos, é possível, até necessário, correlacionar a tradução da Bíblia com a expansão missionária do evangelho, e isto se repetiu centenas de vezes ao longo da história.

Conclusão
O mais surpreendente para nossa reflexão não é a correlação entre a Bíblia e a obra missionária. Também não é o papel prático da redação, compilação, tradução e distribuição da Bíblia no avanço dos propósitos de Deus no mundo desde a antiguidade. Mas, o mais surpreendente é que demoramos em reconhecer isto, promover fóruns sobre o assunto, estudar com bom proveito esta correlação a fim de nos perguntar: como, então, podemos melhor nos empenhar na missão de Deus em direção a sua nova criação, novos céus e nova terra, por meio deste instrumento e bússola tão precioso?

Notas
¹A ABUB promoveu uma primeira conferência missionária nacional em Curitiba em 1974.
2 Por exemplo, o meu livro, Missões na Bíblia. Princípios Gerais (São Paulo: Vida Nova, 1992) surgiu como uma compilação de palestras dadas em uma conferência missionária em 1983.
3 A primeira escola que ofereceu cursos de formação missionária de um a dois anos foi o Centro Evangélico de Missões (CEM), em 1983.
[Timóteo Carriker]

Crônicas de Nárnia em Hollywood: exageros e omissões


Muitos fãs das Crônicas de Nárnia me perguntam o que penso dos filmes baseados nos livros. De maneira geral, costumo dizer que a comunidade cristã, pelo menos nos Estados Unidos e Inglaterra, tem se manifestado e criado uma “vigilância” sobre o que aparece nas telas. Outro fator interessante é que o enteado de Lewis, Douglas Gresham, foi designado codiretor de todas as produções. Douglas tem um cuidado extremo com o patrimônio cultural de seu padrasto, tanto que ele praticamente está por dentro de tudo o que é publicado sobre Lewis, responsável por sua condução à conversão e ao chamado para a missão que ele exerce atualmente.
 
Dito isso, é claro que as estratégias mercadológicas e de marketing dos filmes não podem ser desprezadas, principalmente por se tratar de uma máquina de produção chamada “Walt Disney”, além de seus interesses nem sempre compatíveis com o cristianismo.
 
Dessa forma, logo no primeiro filme, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupas, há cenas de batalhas bem mais hollywoodianas do que aquelas descritas no livro. Mas, mesmo assim, alguns espectadores, principalmente meninos mais novos, acharam as batalhas “fraquinhas” demais.  São adolescentes acostumados com a violência de videogames e de outros filmes. Essa opinião foi suficiente para que o segundo filme, Príncipe Caspian, “caprichasse” ainda mais nesse quesito.
 
O segundo filme também mostra algo que seria inusitado para Lewis: o romance entre Susana e Cáspian, que só não foi para frente na terceira produção porque a mocinha simplesmente não participa dessa aventura. Isso não significa que ela não é honrosamente lembrada na imaginação de Lúcia, ao abrir o livro mágico em A Viagem do Peregrino da Alvorada. Aliás, nesse filme, há introdução de personagens e cenas inexistentes no livro.
 
Nesse aspecto, Príncipe Caspian é o mais fiel ao livro. Contudo, algumas modificações são até compreensíveis em uma adaptação para o cinema, que sempre envolve uma “tradução” de uma mídia para outra. Ela não seria perfeita se fosse um retrato rigoroso e fiel do suporte escrito, que despreza as características próprias da linguagem cinematográfica. Em alguns casos, a versão do cinema até amarrou “fios soltos” e fez pontes entre cenas um pouco desconexas nos livros. A legitimidade disso pode ser questionada, mas tendo a vê-la com bons olhos, desde que a essência do conteúdo e da mensagem seja mantida.
 
O que é difícil justificar são algumas omissões, mais visíveis no terceiro filme. Por exemplo, na cena em que Aslam faz com que Eustáquio volte para o formato humano, o livro conta que leão literalmente “esfola” as escamas do personagem com as suas garras, em um processo demorado e doloroso. No filme, ele se limita a arranhar o chão em um gesto simbólico, ou incompreensível para os desavisados, e a promover a descamação de Eustáquio com um rugido.
 
Ou seja, a pergunta teológica que surge é: Eustáquio tinha mesmo que passar por esse sofrimento? No filme, há apenas uma constatação da redenção de Eustáquio por Aslam em um passe de mágica. No livro, por sua vez, há um processo e uma causalidade que muito lembra outras cenas das Crônicas, como a de Edmundo nas garras da feiticeira, além de tantas outras passagens dos clássicos de Lewis, O Problema do Sofrimento e o menos conhecido, Anatomia de uma Dor. Deus fala conosco nos bons momentos, mas grita nos sofrimentos, que são o seu “megafone”. Ele é como um dentista, como um cirurgião que pode nos machucar em consequência de uma causa, ao longo do processo de cura. Tal dor não tem poder de redenção, que é prerrogativa de Aslam.
 
Há inúmeras outras cenas de omissão que deixaremos para as “cenas do próximo artigo”, pois vale a pena aprofundá-las. Fica aqui a pergunta, por enquanto: O que omissões como essa querem dizer? Que a cena do dragão com Aslam era complexa ou “teológica” demais para merecer o carimbo da Disney?

[Gabriele Greggersen]